sábado, 11 de junho de 2016

Pirraça e suas marcas


Tema: Uma pirraça que marcou

Se fôssemos dividir a nossa vida em dois momentos proporcionais às relevâncias dos fatos, sem dúvida seria antes e depois de ser mãe. Essas duas experiências significativas resumem o trajeto linear representado pelas fases de criança à adolescente e de adulta à mulher.

Desde bem cedo, aprendi que os triunfos não estavam associados às chantagens emocionais e muito menos às birras ou pirraças. Ainda que não concordasse, nunca atropelei uma determinação dos meus pais porque eu era apenas uma gota em meio àquele poço de sabedoria e de amor.  Tinha muito que aprender antes de tornar-me sujeito das minhas decisões.

A princípio, como filhas, vivemos sob condições impostas, um espécie de liberdade guiada pela sabedoria dos pais, para o nosso próprio bem,  quer concordemos ou não (Só descobrimos isso anos mais tarde)

Depois que os papéis se invertem, sentimos o irrecusável peso da responsabilidade tocar-nos as costas e, de mansinho, estabelecer-se definitivamente em nosso ser.  O relógio inicia, então, a contagem do tempo: é hora de colocar em prática os ensinamentos que tivemos para melhor guiar, orientar, educar nossos filhos.

Ninguém nasce mãe, é um processo que ocorre junto com a gestação e vai amadurecendo no dia-a-dia. A vontade de aprender e fazer tudo da melhor forma possível supera a habilidade para tal. Por isso, impossível evitar algumas gafes quando se deseja encarar, de fato,  a maternidade.

Flechada pelo Cupido, aos 20 anos assumi o matrimônio dando início a outra etapa da vida que já dura 34 anos e que  floresceu  com a chegada dos filhos e depois,  dos netos.

Com a chegada dos dois rebentos, meus dias estavam plenamente preenchidos, dois olhos mal conseguiam  acompanhar  o ritmo das peripécias de ambos. Danilo, movido pela curiosidade, carrega consigo a medalha de ouro da teimosia. Patrícia, que nunca gostou de papel subordinado, merece o troféu da argumentação.

Danilo escutava todos os conselhos, mas só seguia aqueles que iam ao encontro dos seus objetivos, ou seja, nenhum! Foi assim que quase se perdeu numa multidão;  queimou a mão em uma fogueira de S João; conheceu a sensação desagradável de um choque elétrico ao mexer numa tomada, sentiu nas mãos o calor de um ferro elétrico ligado, tomou várias ferroadas de abelhas, ficou preso dentro do capô de um  veículo portando a chave,  etc. Todos esses inevitáveis incidentes na infância e parte da adolescência foram consequências de sua clássica desobediência. Como adulto,  menos inconsequente e mais cauteloso, surpreendeu pela dedicação e senso de responsabilidade ao lidar com suas obrigações e escolhas. Porém, a teimosia ainda mostra suas garras, preferindo, muitas vezes, aprender com os próprios tombos.

Patrícia, com poucos meses de vida, descobriu uma forma infalível de persuasão que a acompanhou durante alguns  anos e quase nos enlouqueceu: ela não podia ser contrariada de forma alguma que perdia o ar e passava mal. Tinha que ser socorrida às pressas, jogada para cima, sacudida, soprada. Imagine o desespero meu e de todos da família com medo que acontecesse o pior. Algumas pessoas afirmavam que aquilo era encenação dela, ou seja, pura manha,  e que eu deveria dar uma palmada para assustá-la. Não concordei com essa  ideia e preferi seguir a minha intuição e os conselhos médicos: quando ela ameaçasse perder o ar, eu deveria sair de perto e observar de longe, sem que ela me visse. Dessa forma, caso precisasse eu poderia socorrê-la. Quando percebeu que aquela cena repetitiva já não provocava tanta atenção, aos poucos, ela parou. Até hoje eu não sei explicar com exatidão o que acontecia com a minha pequena ou qual a natureza daqueles dramas... Talvez aquela reação estivesse relacionada ao forte temperamento dela que se manifestou de formas diversas e marcantes em outras tantas cenas da vida...

Dois filhos, dois mundos que eu amo igualmente de forma incondicional e me delicio ao rever suas histórias de traquinagens, confusões, ações e reações que,  aos meus olhos,  virou uma canção cujas notas perpetuam docemente dentro deste coração materno que pulsa por eles...


Zizi Cassemiro, 08/06/2016

terça-feira, 7 de junho de 2016

TOURO E PEIXES: Terra e Água se completam



Quando estamos ansiosos pela chegada de um filho, a última preocupação levada em conta  é  a sua referência zodíaca.  O que importa,  obviamente,  é que venha saudável  e nos embriague de alegria. O signo torna-se irrelevante naquele momento, porque cada filho é um desafio novo, independente se pertence ao  elemento terra, fogo, água ou ar; muito menos se é do sexo feminino ou masculino.

A satisfação com a chegada de um novo ser se mistura à aventura em lidar com alguém cuja personalidade e comportamento são distintos daqueles que ocupavam a nossa rotina até então. E no correr dos minutos, horas, dias, meses e anos, os traços que caracterizam essa “pessoinha” (no sentido diminutivo e carinhoso da palavra) vão, aos poucos, se definindo, permitindo, assim, uma prévia do futuro adolescente-adulto que irá compor o nosso cenário e fomentar as nossas expectativas.

Criamos todos os filhos seguindo a mesma linha, embora no primeiro a inexperiência nos “engesse” um pouco mais (o medo de arriscar e ser mal sucedido é maior que a procura de prováveis soluções simples). Entretanto, cada ser é um autêntico protótipo,  único e singular cujo molde não é reutilizado. É como um livro escrito pelo mesmo autor, mas que traz um ingrediente extra no enredo que o diferencia dos demais. O nascimento é, portanto, o auge da inspiração e o prêmio maior da criação. Sentimo-nos mais completos quando somos contemplados por esse milagre da multiplicação do ser.

Em casa, essa dádiva foi marcada pela diversidade no casal de filhos: ele: Danilo, o taurino; ela: Patrícia: a pisciana. Em outras palavras: terra x água. Para equilibrar esse contraste,  entra o elemento ar da aquarianíssima Zizi, a mãe coruja que se posicionava no meio da arena para mediar os conflitos e tentar, na medida do possível, ser justa, reconhecendo em cada um o seu valor, associado aos seus direitos e deveres.

Percebi, desde que eram pequenos, diferenças significativas entre ambos: ele teimoso ao extremo, muito inquieto, satírico, prático, ousado, com talentos musicais e artísticos para descontrair e encantar,  curioso ao extremo a ponto de quebrar o relógio de pulso do pai para ver como funcionava por dentro. Não é à toa que esse taurino tornou-se um ilustre engenheiro.

Ela: indiscreta (diz o que pensa doa a quem doer), intuitiva, de alta sensibilidade (com flashes de clarividência), com talentos literários para poema e prosa, leitora assídua, crítica, madura desde pequena, muito humana com as questões sociais, corajosa e impulsiva. Tudo isso já era um ensaio para a pisciana ser essa competente geógrafa.

Todavia, nem tudo gira em torno de antíteses. Há pontos convergentes entre eles: inteligentes, sensíveis, carinhosos e amorosos, competentes, responsáveis, determinados, boas pessoas para a sociedade, bons filhos dos quais me orgulho muito e que carregam um pouquinho de mim em algum cantinho daqueles adoráveis corações que fazem o meu bater mais forte...

Zizi, 01/06/2016

sexta-feira, 20 de maio de 2016

(Re)Aprender a dar banho?

Texto publicado em 21/05/2016 no blog:
http://materna-idade.blogspot.com.br/:


Grandes expectativas compõem o momento do primeiro banho do bebê, especialmente para aquelas marinheiras de primeira viagem cheias de receios e de incertezas, mas que deram, sem hesitar, seu sim à maternidade e assumiram esse compromisso com coragem e determinação.

A boa notícia é que não estamos sozinhas nessa missão: presenças e palpites de parentes ou amigos circulam por todos os ângulos.  Todos solidários formam uma corrente de otimismo para incitar esses primeiros desafios maternais.

Memórias da infância vêm à tona e provocam nostalgias sem uma contribuição prática para aquela ocasião: os banhos nas bonecas  eram tão simples e tranquilos! Deveriam servir como ensaios para essa singular e real experiência. Entretanto, alimentou apenas o imaginário; o verossímil ficou à deriva...

Tenho nas mãos um serzinho frágil e enrugado cujos olhos me fitam, não de modo indagador, mas  com um olhar inocente e ao mesmo tempo curioso para saborear uma aventura hídrica.

Inquietações iniciais buzinam dentro da minha cabeça:  E se eu o derrubar?; E se a água entrar nos ouvidos?;  E se o bebê engolir aquela água durante o banho?; Qual sabonete ou shampoo ideal? ; O que fazer se os olhinhos do bebê arderem?,  Saberei  banhar direito todas as partes?; E se eu machucar o umbigo que ainda não caiu?; A temperatura da água está adequada?; O volume da água está apropriado?; Quanto tempo deve durar o banho?; Posso banhá-lo mais de uma vez por dia? Etc...etc.

Perguntas e respostas se fundem. Não há tempo para elas naquele momento. Palavras atrasam atitudes, reflexões adiam decisões. Para que esperar mais por algo tão evidente?

Cautelosamente, sentei-o na banheira apoiando-o na mão esquerda enquanto a direita trabalhava simultaneamente com o sabonete e água pelo corpo e nos cabelos do bebê. Foi necessário mudá-lo de posição para o acesso às costas e término da tarefa.

 Trabalho concluído em poucos minutos com sucesso. Medo superado a cada banho. Só mesmo a experiência diária capacita uma mãe à perfeição. 

Zizi. 21/05/2016

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Importei da minha infância


I
Importei da minha infância
Esse meu jeito menina
O  bom senso de humor
Que até hoje predomina
Apesar de ser avó
De dois netos, vejam só
Brinco com minha rotina

 II
Importei da minha infância
Meu jeito de fazer graça
Gostava de imitação
Vestida como palhaça
Divertia o pessoal
Na maior cara de pau
Merecia  até uma taça.

III 
Importei da minha infância
A oratória dos meus pais
Que doía mais que vara
Com resultados iguais
Pois palavras tem um peso
Agem de modo coeso
Educando muito mais.

IV 
Importei da minha infância
Esse lado humanitário
Gostar de ajudar o próximo
Em trabalho voluntário
Pois a sensibilidade
É uma grande qualidade
Não depende de salário.

 V
Importei da minha infância
O amor pelos animais
O zelo pelos bichinhos
Para mim nunca é demais
Sempre tive a companhia
Deles no meu dia a dia
Desfazer disso?  Jamais! 

 VI
Importei da minha infância
As qualidades que tenho
Valorizar as pessoas
Reconhecer seu empenho
Enxergar o lado bom
Descobrir que há um dom
A ser tratado com engenho.

VII 
Importei da minha infância
A religiosidade
O respeito ao Ser Supremo
Fé,  amor e  caridade,
Ser simples nas atitudes
Valiosa nas virtudes
Conduzir sempre  a verdade.

VIII 
Importei da minha infância
Os  valores  necessários
Para esboçar o meu palco
E traçar o meus cenários
Escrever o meu enredo
Sem mistério nem segredo
Nas linhas dos meus diários.

 IX
Importei da minha infância
A educação que tive
Tão humilde e grandiosa
Que nesses versos revive
Com flashes de umas lembranças
De quando eu era criança
E até hoje sobrevive.

Importei da minha infância
A explicação do agora
Como entender o presente
Se o passado ignora?
O  tipo de mãe e avó
Cujas crias são xodó
E exibo mundo afora.

Zizi; 15/05/2016

sábado, 7 de maio de 2016

De brotos à sementes

tema : Filho não cresce

Falar sobre filho é ir direto ao coração de uma mãe e se deparar com o mais profundo e legítimo sentimento, único que não impõe condições para nascer,  crescer e multiplicar-se a cada dia: o amor materno.

Chegam ao mundo tão pequenos, indefesos,  franzinos, cheio de dores,  chorões, famintos. Pronto!  Estamos com um novo ser nas mãos com todas essas características, e agora?  Somos a principal responsável por eles. Se algo der errado, a culpa cairá, sobretudo,  em nós, mães! Se nosso filho for alguém de bem ou não, será sempre  o “filho da mãe”.  Haverá também  aqueles que  se lembrarão  que a boa educação que teve em casa, contribuiu para que ele se tornasse um ser iluminado e útil para a sociedade. Ponto para a mãe, nesse caso!

Que missão é essa com início e sem fim?  Que amor é esse que só amplia,  independente da situação, dos conflitos? Que força é essa que não se abala?  Que dom é esse que mistura carinho, dedicação, confiança, alegria e superação? Alguém consegue limitar as fronteiras desse sentimento?  Ou negar tudo isso?

A sabedoria adquirida pela experiência materna é magicamente imensurável e não tem comparação, por exemplo:   O rebento, no início, não fala,  mas uma mãe já o compreende e sabe tudo o que ele sente; o rebento não anda, mas a mãe já o prepara para esse momento colocando-o em pé para que ele sinta as perninhas esticadas. Todas as evoluções são acompanhadas passo a passo e vividas intensamente, eternizadas em fotos e filmagens para que tais momentos possam ser retomados e vivenciados posteriormente, pois para uma mãe, contemplar o filho já lhe basta.

Ela vive em função dele 24 horas, ela faz e refaz a sua vida tendo a imagem do filho como prioridade, ela se sacrifica no trabalho e em casa por ele e ainda carrega no coração um sentimento de culpa por ter que se ausentar por algum tempo e atender a mais obrigações que possui além da materna, pois  precisa garantir o bem-estar e sobrevivência da cria.

Hoje, aos olhos desta mãe que é personagem de um contexto materno há mais de três décadas,  desfilam muitas fases da vida dos filhos, entre elas: os primeiros cuidados, os ensaios para os passinhos, os balbucios nos treinos da 1ª palavra, as traquinagens, as curiosidades e brincadeiras, a batalha para aceitar a papinha, a ida à escolinha,  etc.

Esse último representa o início de uma construção para a vida externa que vai  além do olhar materno. Esse momento chega, meio sem aviso, sem permissão e  faz uma  reviravolta de 360 graus deixando para trás aquela estável condição de subordinação da qual fazíamos o papel da oração principal em nossa zona de conforto.

O próximo iminente voo é pura consequência: trabalho,  faculdades, casamentos, netos...e lá se vão os nossos eternos brotos fertilizar outros campos e germinar mais sementes dando início a outros contextos que traçarão a continuação da vida! (Um círculo vicioso?) 

sábado, 30 de abril de 2016

AI, palavras, ai palavras!

Tema: Tá de castigo! Texto publicado em 30/04/2016 no blog:http://materna-idade.blogspot.com.br/

Aprendi com meus pais que as palavras vão além dos fonemas emitidos numa troca de comunicação; elas adquirem peso, forma, cor, dimensão, cheiro e sabor,  preenchem os cinco sentidos numa relação de causa e efeito e nos acompanham em todas as fases da vida.

Na infância e adolescência o nosso papel é secundário pois somos subordinados aos pais, os quais, por estarem no controle,  decidem como educar . No meu caso, desconheço  os efeitos mágicos do cipó, varinha, chinelo e cinto como corretores porque, felizmente, não tive o desprazer de vivenciar esses mecanismos educativos quando criança ou adolescente. Meu pai (talvez por ter sido injustamente punido tantas vezes quando criança pelo meu rigoroso avô), prometeu a si mesmo que jamais adotaria tais práticas corretivas na educação dos seus filhos. E cumpriu isso à risca, apelando para uma outra alternativa tão eficiente quanto aquela e que garantia  um bom resultado.

A técnica era simples:  quando uma de nós violava um critério, ele nos castigava com uma surra de palavras. E como doíam aquelas flechadas lexicais de efeito maçante cuja tortura era oferecida em pequenas e repetidas doses durante horas! Ai, que saudade de um vergão na perna, que vontade de ouvir o cantar da varinha antes de atingir o “alvo” (Quem sabe, fosse menos doloroso!)... Paradoxalmente, eu ansiava por algo que nunca conhecera: o castigo físico.

Essa experiência definiu parte do meu comportamento depois que os papéis se inverteram na ordem cronológica da vida: passei de filha à mãe e, mais tarde, avó.

Ninguém carrega tanta incumbência quanto uma mãe. O mundo observa, cobra, aponta e culpa especialmente a essa singela criatura a boa educação dos filhotes, ou seja, além de gerar, parir, alimentar, zelar, ela é a maior responsável pelo o que aquele serzinho irá se tornar um dia. Os regozijos da maternidade mesclam-se com as múltiplas atribuições.

Mesmo compreendendo a seriedade da missão materna, abracei a causa e dei as boas vindas aos rebentos: Danilo e Patrícia, que chegaram, não de mãozinhas dadas, mas com um intervalo de 1 ano e 10 meses de diferença. Mal tive tempo de me recompor de uma gestação para a outra.

Quando a pequetita nasceu, o espertinho pensou que fosse uma boneca. Pudera! Ela era tão pequenina! Entretanto a indefesa figura foi aos poucos ocupando os espaços que até então pertenciam somente a ele: o berço, o carrinho e outros acessórios, o colo,o carinho e a atenção de todos. Quando percebeu que precisava dividir tudo, ele ficou uma fera e partiu para o ataque. O instinto materno detectou as intenções ferinas e posicionei-me em defesa da recém-chegada. A receptividade dele não foi das melhores. Eu não podia deixá-la sozinha com o irmão em momento algum, pois corria o risco de algum incidente. Eu ir ao banheiro? Só se a trancasse no quarto e levasse a chave . Um segundo para ele seria suficiente para uma manifestação de protesto cujo alvo nem podia se defender.

Mesmo com todos os meus cuidados, a pequena teve a infelicidade de sentir os dentes do irmão em uma das orelhinhas. Chegou a sangrar. Percebendo a gravidade do seu ato, Danilo  correu e enfiou-se no colo do avô, como se suplicasse proteção. Eu, inconformada com o ocorrido e dominada pela raiva, larguei a pequena chorando e fui atrás dele. Arranquei-o  dos braços do avô e o puni com algumas chineladas e broncas. A partir disso, redobrei os meus cuidados para que nunca mais o fato se repetisse.

Danilo escutou tantas vezes o meu discurso sobre a fragilidade da irmã; a necessidade de protegê-la e não atacá-la; a importância de se ter irmãos e de se darem bem; a cumplicidade e o companheirismo que deveria existir entre eles que deve ter absorvido minha mensagem.etc,  Aquela foi a primeira e a última vez que ele a machucou.

Gradativamente, ele se aproximou da irmã e ficou animado depois que percebeu que aquela miúda era uma pimentinha, parceira perfeita nas aventuras pueris. Como professor de traquinagens tratou de ensinar alguns truques a ela: a 1ª aula foi “como sair do berço”, depois sucederam outros: como se esconder da mãe dentro de uma loja lotada, pular na cama, subir em móveis e quebrar objetos, virar o fogão em cima de si mesmo”, derrubar a televisão, e outros. Se depois de tudo isso, sobrasse tempo, eles lembravam que possuíam brinquedos e se ocupavam com eles durante algum tempinho.

Eu vivia com o coração na mão, na iminência do próximo susto. As enxurradas verbais só faziam efeito naquelas criaturinhas no momento em que estavam sendo despejadas. Em decorrência, as chineladas ou varadas, pareciam parte de uma maratona. Eles, incansáveis atletas e eu não, mas  minha mão era certeira e o chinelo, voador.

Os anos se encarregaram de acentuar os traços distintos da personalidade de ambos. Ele: arteiro, teimoso, provocador. Ela: indiscreta, impulsiva e crítica. Meu desafio: mediar os conflitos (quase) diários desses dois. Dependendo do contexto, os castigos variavam. Quando discutiam, eu os obrigava a andar de mãos dadas; quando se atacavam fisicamente,  eu não perdoava: a cinta cantava no couro deles. Para cada cintada na Patrícia, o Danilo ganhava em dobro. Depois tinham que se desculpar. Eu os colocava de castigo e caprichava no sermão.

Nem na hora da foto eu tinha sossego. Era um drama! Eu os arrumava e os colocava bem próximos para a foto. Ele aproveitava a situação e a sacudia de um lado para outro. Ela gritava, ele ria, ela reclamava, ele se divertia. Eu finalizava aquela confusão com um brado autoritário e ameaçador. (Fazer o quê?)

Infância e adolescência foram épocas diferentes, porém, certas características sobreviveram, sobretudo as provocações do Danilo e as reações da Patrícia que não se intimidava de forma alguma. Ela aprendeu, a duras penas, a se defender de qualquer marmanjo que a desafiasse e leva até hoje esse aprendizado para a vida.

Não gastei minha saliva à toa: hoje eles são adultos prudentes, sensatos, cheios de responsabilidade. Ufa!!

O Gabriel veio compor o nosso cenário em 2004 e nos ensinar mais um pouco. Agora como avó, eu era mais tolerante para acompanhar as travessuras do novo integrante.  Mesmo assim não deixei de lado o meu legado, pois a criança precisa compreender que  não pode ser inconsequente e que deve obediência sim aos pais e avós, a princípio.

Criei, então, um cantinho para ele ficar de castigo quando ultrapassasse os limites estipulados. Ele gostou tanto disso que quando fazia algo errado, nem precisava mandar, já ia correndo sentar lá por conta própria e ainda justificava:  “fiz uma coisa errada”. Meu neto não é arteiro como o pai, é mais tranquilo. Mesmo assim, precisou e ainda precisa ouvir os conselhos  ou as chamadas de atenção da avó porque está em fase de formação.

Sou contra espancamento, mas quando as palavras não conseguem resolver uma situação de resistência, o jeito é apelar para outro método que funcione. Não podemos ser permissivos a ponto de eliminar qualquer limite aos nossos filhos. Eles precisam ser acompanhados, orientados, direcionados. Um elogio ali, uma crítica aqui, um basta acolá...Nós os educamos para a vida,  e se eles não tiverem nenhuma noção entre o certo e o errado, o mundo, lamentavelmente,  os ensinará da maneira mais cruel possível.


Zizi, 30/04/2016

domingo, 17 de abril de 2016

Quando “parto” não é ida, é chegada!

Tema: Parto normal ou cesárea?
Texto publicado em 17/04/2016 no blog:
http://materna-idade.blogspot.com.br/2016/04/quando-parto-nao-e-ida-e-chegada_17.html


Um caderno com algumas folhas vazias, lápis e uma borracha: minhas primeiras ferramentas para o início de uma construção empírica. Poderia ser mais simples e fácil relatar tais experiências visto que somente nós, mulheres, possuímos o privilégio do TER e do SER: temos um casulo que abriga o novo ser e somos o portal desta recente vida.

Entretanto, as palavras iniciam uma brincadeira de esconde-esconde comigo. Sinto-as por perto rodeando-me, provocando-me. Ouço os balbúcios. Tantos, atropelados, rebeldes, ininteligíveis. Só preciso de um tempo para organizá-los.

Resgatar com exatidão fatos ocorridos há mais de trinta anos requer certo esforço uma vez que o acervo é grande e nossa memória tem critérios seletivos para armazenar nossas histórias. Contudo, eu confio nesse baú de imagens e de palavras. As recordações lá contidas estão protegidas por uma substância mágica e verdadeira que não se pode adulterar: o amor materno.

Já me disseram que sou uma “mãezona”.  Talvez essa definição condense um misto de elogio e (quem sabe!) crítica ao mesmo tempo,  por tratar com carinho as pessoas, por me importar com elas, por protegê-las. Realmente, há situações em que o instinto maternal fala mais alto e determina as ações voltadas para aqueles que, supostamente,  precisam de mim. Por isso fica difícil afirmar quantas vezes fiz  papel de mãe nesta vida, mas sei, certamente, o que representa a expressão “dar à luz”.  Por duas vezes vivenciei a mais incrível e singular experiência que uma mulher conhece na sua trajetória feminina.

Danilo e Patrícia: o maior e melhor presente divino que possibilitou meu crescimento como ser humano.  E vou além: Deus, na sua sabedoria e generosidade, trouxe-me anos depois o complemento dessa evolução: os netos: Gabriel e Johnny,  protagonistas de tantas histórias de amor, aventura, humor, ação, suspense e mistério que, aos poucos, farão parte destes contextos maternais.

Embora seja clichê a expressão “túnel do tempo”, é justamente nela que pretendo mergulhar para  trazer à tona os episódios de 1984 e 1986, datas extremamente relevantes que marcaram o nascimento dos meus filhos.

As duas gravidezes não trouxeram problemas, tudo ocorreu conforme manda o protocolo: acompanhamento mensal no pré-natal, cuidados com a alimentação, sensibilidade aguçada, muita sonolência à noite, azia, falta de ar nas subidas e os inevitáveis quilinhos a mais (20 kg a mais na gravidez do Danilo e 22 na gravidez da Patrícia). Nunca senti enjoos nem vontades estranhas.

Sempre fui irrequieta, meio ligada nos 220 volts, mesmo grávida. Andava de bicicleta, subia em muros e na laje da casa, ia para a casa da vizinha pelo muro, fazia caminhadas... Aquele barrigão nunca me impediu de fazer as atividades cotidianas,  até mesmo pintar a casa duas semana antes do nascimento do Danilo..  Lógico que não me faltavam advertências verbais da minha mãe, irmãs, sogra e dos demais parentes. Eu sabia que estavam preocupadas com o meu bem estar e do bebê, porém não via necessidade de uma mudança tão brusca. Como passar de dinâmica à estática de uma hora para outra?

O que mais me incomodava mesmo, nessa época, eram as histórias referentes à hora do parto. Nossa! As fontes eram diversas e em quase todas elas haviam enredos de dores insuportáveis, agonia sem fim, lágrimas, lamentos, promessas, etc.  Aquilo não me ajudava nem um pouco. Ao contrário, eu ficava imaginando o quanto iria sofrer na hora do parto e, na sequência dos dias,  o momento crucial se aproximava e minha expectativa crescia junto.

Em uma bela madrugada de sono profundo, antecedendo o dia das mães (12/05/1984) fui surpreendida pelo rompimento da bolsa e naquele momento compreendi que chegara a hora da ida ao hospital,  pois o trabalho de parto se iniciara. Entretanto o Danilo não tinha pressa de nascer, fiquei muitas horas no quarto,  acompanhada de outras mães na mesma situação. Como elas gritavam, choravam, sofriam e se lamentavam!! Aquilo foi horrível porque eu estava sem dores ainda tinha que testemunhar todo aquele alvoroço das outras. Eu pensava “Até eu chegar nesse estágio vai demorar!” Foram mais de doze horas de espera. O lindinho resolveu nascer à noitinha: às 18:30 quando, mais uma vez, o médico entrou no quarto para examinar aquelas mães  desesperadas e me viu lá quieta no aguardo. Fez o exame em mim e pediu à enfermeira que me levasse rapidamente para a sala de parto porque o bebê já estava nascendo. Eu estranhei, estava sentindo as contrações sim, mas era algo suportável. Pelo drama que eu presenciava naquela sala das demais mães,  esperava coisa pior. Danilo nasceu de parto normal com 46 cm e 2.500 kg. Ele foi bem paparicado, era o 1º neto paterno e o 1º neto materno do sexo masculino.

Não fiquei traumatizada com o parto, o pessoal exagera nos comentários. Cada experiência é única e por isso não podemos transferir nossos medos a outrem. Mesmo assim, não planejei outro filho em seguida, queria esperar o Danilo crescer um pouco mais. Acontece que Deus tinha traçado um plano secreto o qual chegou ao meu conhecimento somente depois de quatro meses de gestação.

Apesar do susto, encarei e fiz todo o procedimento necessário. A segunda gestação não foi diferente da primeira, com exceção de um detalhe: nessa eu fiquei mais redonda. O rompimento da bolsa ocorreu igual da outra vez: eu acordei molhada pelo líquido amniótico, arrumamos a mala e partimos rumo ao hospital por volta das 7:00 da manhã no dia 09/03/1986. Meu marido acreditou que iria demorar como da outra vez, deixou-me lá e voltou para casa. Entretanto, mal sabia ele que a mocinha que, por pouco, não nascera no Dia da Mulher, gostava de surpreender. Patrícia nasceu de parto normal dali a minutos, como num passe de mágica. A pequena princesa mediu 46 cm e pesou 2,300 kg.

Novamente toda a família foi comemorar o milagre da vida, a chegada de mais um ser  que muito nos acrescentou e que, junto com o Danilo, pintaram as nossas telas de todas as cores com a magia e o encantamento que somente as crianças possuem...

   Zizi,   17/04/2016,  

Se as paredes falassem...

Tema: O primeiro dia na escola do meu filho
texto publicado em 04/04/2016 no blog:
http://materna-idade.blogspot.com.br/2016/04/se-as-paredes-falassem_4.html


Nós, mães, somos “experts” em solicitar parcerias em prol dos nossos pequeninos. Depois que eles desocupam o santuário uterino, dá-se início a uma jornada com plantão 24 horas. Os principais aliados que nos apoiam nesse momento estão por perto: pai, avós, tios(as). Tantos olhos e braços em alerta somados aos meus deveriam ser suficientes,  no entanto, não impedem que alguns imprevistos escapem.

Depois que cessam as fraldas, concomitantemente os passinhos exploram cada centímetro e ângulo da casa, as mãozinhas buscam a textura de tudo à sua volta. A partir daí, as paredes transformam-se em telas gigantescas simplesmente porque os pequenos artistas decidiram montar seu ateliê nas dependências do lar, pois precisavam extravasar o ato criador e não havia papel que chegasse.

Quando nossa casa vira um afresco, é sinal de que um novo capítulo se inicia,  marcando o próximo desafio. Sozinhos, não estamos preparados para lidar, aprimorar e direcionar tanta criatividade infantil. Precisamos de um perito que saiba direcionar os traços pictóricos em algo mais palpável e inteligível. Por trás daqueles hieróglifos enigmáticos escondem-se letras, sílabas e palavras terrivelmente ansiosas para serem decodificadas.

A ideia  de matriculá-los em uma escolinha apeteceu-me então. E assim foi feito. Essa nova parceria tornar-se-ia crucial para a descoberta de um propósito cujo desenvolvimento já estava a caminho.

Uma das minhas preocupações foi encontrar uma escolinha que se parecesse com uma casa. Assim, o ambiente não mudaria tanto aos olhinhos deles e a adaptação seria mais fácil. Fui levá-los, pois naquela época o tempo era meu aliado com dedicação plena e exclusiva aos meus filhos.

O amor de mãe, embora intenso,  provoca emoções paradoxais. Por mais que concordemos que a escola é necessária não só para o primeiro contato com as letras, mas também para desenvolver a individualidade, a socialização, interação, vivenciar novas situações, enfim, um preparo para a vida, essa “quebra parcial do vínculo” dói e nos incomoda a ponto de deixar-nos inseguras e até chorosas quando vemos nossa cria pronta para a luta com a mochila nas costas.

Não foi fácil vê-los encarar, pela primeira vez, a escolinha. Da parte deles, receberam a notícia sem resistência, com sabor de aventura, pelo menos nos primeiros dias... Depois que perceberam que era “pra valer”, passaram a inventar desculpas, fazer manha e usar artifícios de chantagem para reduzir a assiduidade. Todavia, o livre arbítrio estava descartado. Não havia outra opção a não ser entrar no ritmo e aproveitar melhor essa nova missão.

Tentando buscar mais detalhes que enriquecessem meu relato, perguntei aos dois protagonistas desse enredo quais lembranças tinham ficado  do primeiro dia de aula. Se para eles foi difícil resgatar fatos ocorridos há, mais ou menos, 25 anos, imagine para mim.  Mesmo assim comentaram alguns aspectos os quais eu conhecia e já estavam aqui registrados sob o olhar singular dessa mãe que enxerga seus filhos do jeito que o coração permite.

Tanto  eu quanto eles sabemos que o compromisso com o futuro começou ali, naquelas salinhas com outras crianças, em meados de 1990. O resultado é mais que positivo, é gratificante. Hoje, com orgulho, olho para um engenheiro e uma geógrafa diante de mim, ambos lindos e cheios de responsabilidades, construindo suas vidas com uma riqueza que transcende qualquer outra: o saber.


Em suma, o contexto escolar foi um terreno bem fértil para tantas histórias que vão da comédia ao drama:  que o Danilo levou um cadeado para colocar na orelha do coleguinha e o perseguiu durante o intervalo e a Patrícia mostrou que tamanho não era documento reagindo com a mesma moeda a uma agressão física  de uma amiguinha de sala, são assuntos para um outro post, quem sabe...

Zizi,  03/04/2016

quinta-feira, 24 de março de 2016

EMINENTES MICOS MATERNOS

Texto publicado no blog 
http://materna-idade.blogspot.com.br/2016/03/eminentes-micos-maternos.html  dia 21/03/2016


Tudo começa com um “sim”. E dessa junção de seres, outros contextos se formam recheados de novos integrantes com suas peculiaridades. Nem fazemos ideia do que nos aguarda...  Se estamos ou não preparados para os imprevistos decorrentes das aventuras maternas, como saber sem experimentá-las? Então, aceitamos o desafio.

Para quem já caiu da ponte em um rio enquanto pedalava uma bicicleta; despencou de uma árvore ao tentar saborear uma fruta amadurecida no pé; não conseguiu galopar e caiu do cavalo; ficou presa na porta do ônibus porque o motorista a fechou com antecedência; tomou um banho de lama ao cair da moto com o namorado; saiu apressada para o trabalho e nem reparou que a roupa estava do lado avesso;  percebeu que fora roubada no ônibus no momento de pagar a passagem; foi passar a roupa para a futura sogra e queimou algumas peças; virou piada na família depois do infeliz comentário que fez ao ver, pela primeira vez,  um pé de jabuticaba: ”Nossa, jabuticaba dá no pau”!!...etc...etc...etc  Não seria tão difícil encarar mais emoções envolvendo novas criaturinhas que, a seu tempo,  certamente chegariam.

Depois da troca de alianças no altar e as comemorações posteriores, passei de menina à mulher e fui fazer jus às promessas proferidas naquele 31 de julho de 1982. Em poucos anos, as palavras “crescei-vos e multiplicai-vos” ganharam significado em casa na forma duas bênçãos: Danilo e Patrícia.
Ele: inteligente, esperto, inquieto, curioso, traquina, andou aos nove meses e antes de completar um ano já falava feito uma matraca. Um projetinho ligado nos 220 v. que pôs um ponto final no meu sossego! Não podia tirar os olhos desta criatura tão dinamicamente minha. Devido ao seu gênio docemente indomável, alguns micos tornaram-se inevitáveis e ao mesmo tempo previsíveis; cabia a mim ou ao pai, arcar com as explicações.

Um deles ocorreu na igreja, durante a cerimônia da missa. Enquanto o padre discursava e os fiéis o ouviam, meu filho o observava, e de repente saiu em direção ao altar,  sem aviso prévio. Parando em frente ao vigário, abaixou-se e ergueu a batina deste. Provavelmente ficara intrigado com o uso daquela vestimenta típica e quis verificar o que havia por baixo dela. Desconcerto geral na cerimônia, não havia quem não risse. O que poderíamos fazer para reverter o vexame? Nada! Só desculpas balbuciadas e recolher o menino ao colo.

Dali a quase dois anos chega ela: a pequena notável demonstrando desde já suas peripécias e habilidades. Esta, além de elencar as mesmas qualidades do irmão formando um par perfeito (para a minha alegria), acrescentou uns detalhes que me deixaram fora de órbita: não tinha trava na língua e colocou-me em saias justas diversas vezes. Dizia sempre o que pensava, doesse a quem doesse. Em alguns momentos, ela também expressava seus dotes artísticos: desenhava as pessoas e as presenteava. Tais  ilustrações eram ricas em detalhes naturais, ou seja, nuas. Faltavam-me as palavras para justificar sua originalidade.

Tão articulada era essa menina que, na escola, quando  escrevia textos, as professoras se recusavam a aceitá-los alegando que tinha sido feitos por mim, por conter ideias muito maduras para a idade dela. Como eu iria provar que a pequena era autossuficiente? Só eu sabia que sim.

Certa vez, na mesma igreja em que o Danilo erguera a batina do padre, estávamos lá novamente em uma cerimônia de Primeira Comunhão da Patrícia. O padre fez o seu discurso em homenagem aos participantes daquele ritual religioso e, dirigindo-se às crianças, perguntou se alguma delas gostaria que sua mãe, representando as demais,  viesse à frente e proferisse uma mensagem. Estavam presentes diversas crianças, porém, de onde eu estava, escutei uma vozinha familiar dizendo: “EU”. Perante uma igreja lotada, seria indelicado recusar um pedido desse. Trêmula e gelada pelo imprevisto, respirei fundo e fui, nem me lembro do que disse. Vítima da boa intenção e inocência de minha filha,  paguei o maior mico, pois sou tímida. 

Embora ficasse desestabilizada com as situações embaraçosas que meus rebentos  me preparavam, eu amava aquelas traquinagens e me divertia junto. Entretanto,  o tempo vai estendendo, apressadamente,  seu tapete cronológico sem pedir licença e insere aqueles pedacinhos da gente no mundo adulto. Se precisasse, eu faria tudo novamente. Valeu a pena cada mico!


Zizi,  21/03/2016

domingo, 6 de março de 2016

A melhor viagem: o passado X presente

Texto publicado em 06/03/2016 no blog:
http://materna-idade.blogspot.com.br/
cujo tema é: Nosso melhor passeio juntos




Meados de 2014, férias de julho se aproximavam e, consequentemente, alguns planos, mesmo incertos, brotavam, numa expectativa imensa de serem apreciados, colhidos e consumidos. Qual deles seria contemplado?
Dessa vez, dei voz àquela ideia que há tempos matinava em minha cabeça, ecoando, com toques leves e contínuos, os acordes de uma melodia que resgata pessoas e fatos inseridos em algum ponto na minha linha do tempo. Essa sensação, tão comum e ao mesmo tempo singular, tempera nossas lembranças e deixa escapar um aroma melancólico que desperta uma fome do passado, mais conhecida  como saudade.
Também pudera! 40 anos de dimensão temporal e geográfica percorrem o tempo e deixam marcas. Se bem que, os números apenas atendem a uma lógica linear, mas são desprovidos da abstração causada pelo resultado final dessa mera adição.
O momento do retorno era aquele. Rever pessoas e lugares e, assim, verificar quais mudanças ocorreram durante o intervalo dessas quatro décadas, aproximando, dessa forma, as duas pontas da vida: infância e adulta (parafraseando uma das obras do nosso Bruxo Velho)
Explico: parte da minha infância foi vivenciada no Ceará: dos 8 aos 12 anos. Lá conheci meus queridos avós e todos os demais parentes que integravam nossa árvore genealógica. Entretanto, acostumada com a vida em São Paulo, onde tanto os recursos como as possibilidades de emprego eram melhores, tivemos que nos adaptar às condições mais precárias que esse pedaço do Nordeste oferecia naquela época. Foram anos difíceis e inundados por lágrimas que eu, expressando minha angústia e revolta, derramava, principalmente nos momentos em que sentávamos à mesa.
Que maturidade tem uma criança para compreender e aceitar as antíteses que o lápis do destino traça em suas linhas?  A valorização desse processo doloroso ocorreu somente anos depois. E foi por isso que decidi visitar esse passado que já não me assustava mais.  Ao contrário: eu queria mesmo uma proximidade para estabelecer uma interação com tudo o que ficou para trás.
Algumas alterações inevitáveis tinham ocorrido em minha vida desde então, considerando aventuras e desventuras: meus filhos, já adultos e cheios de compromissos e trabalhos, não tinham mais disponibilidade para me fazer companhia nessa viagem fantástica. Se por um lado eu lamentava  a falta dos meus pais, pois Deus os havia convocado e, logicamente,  seria impossível levá-los comigo; por outro, existia o Gabriel, meu netinho, minha alegria,  morava comigo;  este sim compartilhava sorrisos, abraços e aventuras. Nem hesitei; convidei-o para uma viagem ao Nordeste, estimulando-o a conhecer os outros parentes e lugares. Além disso, seria a primeira viagem de avião que faríamos juntos: ele, o avô e eu. Gabriel aceitou de imediato e ficou extremamente ansioso pela data marcada.
Até então, o meu neto só conhecia o Ceará através de fragmentos das histórias contadas por mim ou, às vezes, reportagens na TV. Tudo que antes parecia ficção, iria ganhar forma real.  Quantas emoções novas o aguardavam: ele teria a chance de  experimentar iguarias diferentes,  receberia muito carinho e calor humano daquela gente tão hospitaleira e carinhosa, ouviria a pronúncia peculiar dos habitantes das cidades e do interior, sentiria na pele a temperatura daquele calor inigualável, conheceria o agreste e o urbano no contexto nordestino, a literatura, muitos animais, açudes, rios, muita natureza... tudo, tudo que ele mais gostava!!
A espera pelo grande dia, os preparativos, a ansiedade nos consumia...
Enfim, chegou o momento desafiador: entrar em um avião e ser, por algumas horas,  tripulante desse pássaro colossal. Emoção mesclada com pitadas de receio (para não dizer pavor!). Bendita invenção de Santos Dumont que propiciou um prazer imensurável a esses três aguerridos aventureiros: Gabriel, Marcos e Zizi.
As três escalas faziam parte do pacote e, embora atrasasse um pouco a chegada, foi ótimo parar e conhecer outros estados (pelo menos o que dava vista do aeroporto). Mas nada se compara ao momento em que o avião atinge o ponto mais culminante  e lá do alto, enxergamos uns pontinhos, umas formiguinhas humanas em sua lida,  perdidas no colorido dos campos e/ou das cidades.
Nem preciso descrever a recepção da chegada: meus tios e uma chuva de primos, alguns deles eu nem conhecia ainda... Mutuamente,  Intermináveis abraços, lágrimas e  palavras que tentavam traduzir tamanha emoção;  tantas histórias para contar, outras para relembrar. Novidades também não faltavam,  fiquei sabendo que minha tia, assim como eu, gosta de poetizar.
Foram doze dias que eu caracterizo como “estado de graça”. Tudo foi tão perfeito! O Gabriel não estranhou o clima nem a alimentação. Visitamos cidades e as casas em que eu havia morado quando criança, revi muitas pessoas; fui até reconhecida por uma senhora que fora minha vizinha; adoraram o meu neto e ele também amou o pessoal todo. Nem parecia que tudo e todos eram novidades para ele. 
Nesse retorno, encontrei um Ceará mais amparado, menos fome pelas ruas, mais escolas, mais comércio, mais emprego. Problemas existiam sim, afinal a pobreza ainda reina em alta porcentagem, mas não tão cruel como antigamente...
Paradoxalmente, um dia eu acreditei que a melhor viagem fora a saída do Ceará em 1974 rumo a São Paulo;  hoje,  eu afirmo com toda a convicção que o passeio mais saboroso foi esse retorno às origens, que fizemos juntos em 2014, eternizando emoções, valorizando  e fortalecendo os laços mais significativos...

Zizi, 05/03/2016