sábado, 29 de outubro de 2016

Chegou a Fada do Dente!


Em meu baú guardo preciosidades: alguns objetos que, em algum momento, passaram pela minha vida e possuem um significado especial, por isso não me desfaço deles. Não pretendo enumerá-los para que não me comparem com pessoas acumuladoras (cuja prática chega a ser doentia), mas posso citar algumas coisinhas: possuo a pulseirinha do hospital que colocaram no bracinho dos meus filhos quando nasceram, tenho o umbigo deles, o modelo do convite do meu chá de cozinha, todos os cartões que ganhei no casamento ainda estão lá guardadinhos; além disso,  há cartas, cartões diversos, pastas com textos, roupinhas dos  meus graúdos quando  eram miúdos e, entre tudo isso, há uma caixinha exclusiva, na qual guardo com muito carinho e cuidado umas perolazinhas com formatos e tamanhos  variados que um dia fizeram parte da primeira arcada dentária dos meus filhos e do neto. Isso mesmo: tornei-me a Fada do Dente:  do Danilo, da Patrícia e do Gabriel.

Isso não foi planejado, surgiu, repentinamente,  de uma ideia-clichê de fazer correntes, pingentes ou brincos utilizando os dentes de leite das crianças. Ou, quem sabe, foi uma estratégia para não se desfazer de algo tão deles! Não quis repetir cenas da minha infância  que consistiam em  jogar o dente no telhado, mencionar algumas palavras  e oferecer a sei lá quem. (Sempre fiquei cismada com isso, achava estranho )

Os dentinhos de leite quando amolecem para cair sempre provocam um drama porque a criança fica receosa por perder algo que lhe pertencia. Não  deixa ninguém colocar a mão e ao mesmo tempo pede ajuda aos pais, avós, tios... enfim,  quem estiver por perto.

Assim foi em casa. A cada dente que caía, tanto do Danilo quanto da Patrícia e, anos depois, do Gabriel,  lá se ia o pai/avô, muitas vezes,  munido   de  um barbante para “laçar” e amarrar na maçaneta e, no impulso do movimento de abrir e fechar da porta,  forçar o dente a sair do “ninho”. A minha parte era trazer rapidamente água com sal para enxaguar a boca deles, evitando, assim, um sangramento ou inflamação.

Entre sugestões dos avós e tios que insistiam que o correto seria jogar os dentes no telhado para que viessem outros mais fortes, estavam a corujice da mãe,  o apoio do pai e a  inevitável ansiedade das crianças. O resultado não poderia ser outro: os dentes migravam da boca para a caixinha e estão lá até hoje aguardando o ourives...

 Zizi, 12/08/2016


Tantas fraldas!!


Minha  preocupação com fraldas ocupam um espaço um pouco remoto na linha do tempo. A tecnologia, na década de 80,  não era ainda uma aliada das mamães;  não tínhamos o descartável como nosso elemento básico do cotidiano (embora ele já existisse). Seu uso, entretanto,  se limitava às viagens ou passeios longos e, além do mais, o preço não atraía.  As fraldas, em qualquer época, assumem prioridade dentro de uma casa, um item indispensável e mais numeroso do enxoval do bebê, sejam elas descartáveis ou de tecido.

Nas duas vezes em que engravidei,  a tática foi a mesma para organizar as coisinhas dos lindinhos:  fraldas de tecido compradas por quilo em uma loja; depois de cortadas no tamanho ideal, suas barras eram feitas, uma a uma na máquina de costura doméstica. Após estarem prontas,  eram lavadas, dobradas,  passadas e aguardavam ansiosamente,  o momento do uso. Não me lembro de quantas, mas sei que muitas habitaram aquelas gavetas até serem dispensadas. Deu um trabalhão concluir todo esse processo, todavia, uma mãe é conduzida por uma força que não a deixa sucumbir, afinal ela disse SIM à maternidade!

Todos os dias, durantes alguns anos, muitas fraldas para lavar e passar. Aqueles varais esticados nas  dependências do quintal , lotadinhos de paninhos brancos, sacudiam de um lado para o outro com a força do vento como se quisessem  fugir dos cruéis grampos que os mantinham atados ao fio.

Não posso me esquecer de mencionar a fiel aliada da fralda de pano: a calça plástica que era usada por cima e  impedia, parcialmente, que a roupa ou o berço molhasse.  

Um ano se passou e Danilo nas fraldas,  dia e noite. Até então, não tinha cogitado a ideia de libertá-lo daqueles “panos”. No entanto, logo descobri que mais um bebê estava a caminho e isso significaria um aumento em dose dupla das tarefas, sobretudo das fraldas que eu iria lavar diariamente.

Eu tinha que ser rápida e eficiente para alterar aquela situação: comecei a tirar a fralda dele aos poucos. Primeiro,  em algumas horas durante o dia. À noite eu a recolocava e ficava de olho; esperava um tempinho, levantava e o levava, meio adormecido,  duas ou três vezes  ao banheiro para que ele se habituasse a usá-lo o mais breve possível. Essa cena se repetiu vezes e  vezes...

Quando a Patrícia nasceu, ele estava com 1 ano e 10 meses  e eu não tinha conseguido desfraldá-lo ainda. Senti na pele o sabor do trabalho duplicado por alguns meses. Como nada é eterno, chegou o momento em que ele, finalmente,  emancipou-se,  deu um “basta” para as  fraldas e passou a utilizar o “troninho infantil ” ganhado  como prêmio pela conquista. 

A  Patrícia  seguiu, mais ou menos, os passos do irmão com relação ao tempo do desfraldamento (em média 2 anos). Com duas crianças, não era nada fácil sair e carregar a bagagem completa, principalmente os intermináveis “paninhos de bunda”.  E detalhe: não podiam ser lavadas com qualquer sabão em pó, muito menos enxaguados com determinados amaciantes de roupa, pois o risco de provocar uma alergia na pele dos bebês era imenso. Infelizmente, só descobríamos após o uso. Entre acertos e erros, experiências se ganham...

Mas tais conhecimentos nem sempre são válidos para outra pessoa, porque cada ser é dotado de peculiaridades que os diferenciam. Descobri isso quando fui avó pela primeira vez.  Gabriel não precisou embarcar na mesma canoa do pai, nem da tia.  Ele usou e “abusou das fraldas descartáveis”. Parece exagerada tal expressão, entretanto condiz  com a realidade, pois ele dobrou o tempo de uso das fraldas, superando o pai e a tia juntos. Embora fizéssemos mil peripécias, campanhas e “tchau” para  o número 1 e o 2, ele se mantinha impassível e (absurdamente!) exigia que colocássemos a fralda bem na hora de evacuar. Se não colocasse, ele se negava e não tinha acordo. Chegamos ao ponto de deixá-lo dois dias sem fralda, na tentativa de força-lo a largar, mas foi em vão. Só serviu para penalizá-lo. Desisti, então,  dessa exigência falida e resolvi esperar pelo tempo dele,  mesmo que demorasse! Que viesse quando chegasse o momento certo!  Desde que meu neto estivesse bem, que se danem  as convenções!! 

Um belo dia,  enquanto pintávamos a casa conversando animadamente, fomos surpreendidos por uma vozinha, vinda do banheiro que nos convocava para presenciar sua estreia no troninho infantil!  Que  vitória maravilhosa!! Clap clap clap! clap!!


 (Zizi – 05/08/2016)

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Filhos bem alimentados, mães felizes!

Tema: Ele(a) não come de jeito nenhum!

Os olhos brilham sincronizados com um largo sorriso, um suspiro aliviado expressa a satisfação do dever cumprido e um ar de felicidade toma conta daquele rosto de mãe cujo  filho comeu toda a refeição  que lhe foi oferecida.

Essa preocupação com a ingestão de alimentos saudáveis, entretanto, tem início bem antes dele vir ao mundo.  Durante a gravidez, geralmente a mãe busca enriquecer sua dieta incluindo mais frutas, legumes, verduras para que o bebê seja favorecido.

Depois do nascimento, o período da amamentação ocorre sem maiores preocupações  porque o leite materno é completo e possui uma temperatura ideal. O choro da criança é o indicador da  fome e assim  a mãe fica à disposição da prole.

Passado essa fase mais tranquila, dá-se início ao segundo momento cujo  desafio maior  é transformar  a teoria aprendida nos livros, revistas, vídeos, etc. em práticas cotidianas, pois há uma grande risco de nos depararmos com um serzinho cheio de vontades opostas às nossas. A partir daí, tem início um drama que dura e perdura por tempo indeterminado.

Quando pequenos, somos nós que damos as cartas, mesmo assim eles não querem entrar no nosso jogo; quando crescem e se tornam adultos, passam de objetos à sujeitos e nós, mães, meros termos acessórios. Não desistimos deles mesmo assim. Nosso olhar atento observa, opina, discute.

Assim surgem os relatos saborosos,  cujos detalhes o tempo não apaga...

Quando nasceram, meus pequenos não tinham um peso digno de despreocupação,  pudera!  Um pesou 2,500 kg (Danilo)  e a outra 2,300kg (Patrícia), ambos com 46 cm de comprimento. Os quilinhos a mais que ganhei nas duas gestações  eram somente meus. Perguntaram-me, na  ocasião, se eu era fumante ou se eles nasceram prematuros devido à fragilidade que apresentavam. Duas hipóteses negativas e absurdas que desencadearam em mim uma inquietação muito maior com relação aos alimentos que deveria oferecer a eles para suprir uma (possível) desnutrição.

Danilo sempre foi enjoadinho para comer. Foi amamentado até os seis meses, mas sempre aquele drama: mamava pouco e não tinha horário certo. Como reforço, depois de alguns meses, apelei para a mamadeira, porém o sucesso não veio junto. Ele só tomava a metade e eu tinha que jogar fora o restante do leite todos os dias. Resolvi, então, colocar meia mamadeira, evitando assim o desperdício. Ele observava a quantidade de leite e vendo que estava pela metade, a recusava, talvez acreditando que já havia tomado a outra parte. Que ossinho duro de roer!!! A sopinha de legumes também não era de seu agrado. Lá em casa havia pratinhos térmicos com peixinhos que  se mexiam, colher de aviãozinho...só estratégias para convencê-lo a comer um pouquinho que fosse.Todavia,  só faziam efeito nos primeiros dias. Frutas: só raramente; sucos: um ou dois goles forçados. Enfim, tudo que era natural e saudável ele não dava a mínima. Mas havia algo que gostou quando conheceu e até hoje lidera suas preferências gastronômicas: churrasco!  Quer fazê-lo feliz? Dê-lhe carne, muita carne!! Continua não sendo fã das verduras; quanto aos legumes, apenas o brócolis ninja é aceito como acompanhante em uma refeição.  O  papel de mãe insistente e de oferecer cardápio variado eu fiz durante a infância e  adolescência  do Danilo e, ainda na  fase adulta,  de vez em quando eu pratico para não perder o hábito(rss)

A pequena chegou bem miúda e, para meu desespero, seu apetite era proporcional ao seu peso e tamanho. Eu já tinha experiência com o Danilo e me empenhei no sentido de inverter aquele quadro. Levei-a ao pediatra  em busca de melhores orientações para que ela ganhasse mais peso. Ele recusou-se a passar alguma vitamina porque afirmava ser desnecessário e ainda disse que não havia motivos para preocupações, pois a criança era saudável.  Apenas sugeriu um cereal infantil (Mucilon) no leite depois que ela completasse cinco meses. Apresentei a ela também o cardápio das sopinhas, dos sucos, frutas, da mesma forma que fiz com o Danilo. Essa apreensão atiçou minha criatividade culinária porque eu estava determinada a fazer a Patrícia ganhar uns quilinhos. Não posso afirmar que obtive a vitória de início, pois ela passou a infância e adolescência com aquele corpinho de Barbie. Por outro lado, anos depois,  tornou-se fã das verduras cruas ou  cozidas, dos alimentos naturais, das comidas caseiras leves ou pesadas, das carnes cozidas ou assadas, sopas, sucos naturais, leite, massas, doces ou salgados Enfim, ela se aliou a esses  alimentos por conta própria quando reconheceu  o sabor e a importância deles na sua alimentação. E isso foi essencial, pois mora sozinha e adora inventar pratos.

Meu maior prazer é vê-los em minha casa,  assentados conosco à mesa para um almoço ou jantar. Não economizo nos mimos, como: pratos favoritos, bolos ou doces, além de beijinhos e abraços, lógico!  Entretanto, fico atenta aos exageros porque sei que existem consequências danosas oriundas de uma alimentação inadequada, afinal “Somos aquilo que comemos”, não é o que dizem?

    Zizi, 28/07/2016

Amigos: presentes do coração

Tema: OS melhores amigos(as) dele(a)

Os primeiros grandes amigos das crianças são, sem dúvida alguma, os pais,  visto que representam aqueles com quem sempre poderão contar em qualquer lugar ou momento. Além disso, é um gostar despretensioso e incondicional que, dificilmente, outra pessoa conseguirá suplantar.

Essa base é de extrema importância para a formação do ser humano. Mesmo assim, o mundo não se resume somente em vínculos entre pais e filhos. Outros  espaços serão ocupados por determinadas pessoas de uma forma tão especial que fará a diferença na vida dos envolvidos. Precisamos de mais contatos, para o amadurecimento por meio da interação e da troca de experiências nas fases da nossa vida (infância, adolescência, adulta...), porque o ser humano é fruto do social; o individual cheira a solidão, que lembra isolamento,  que leva a perder-se em si mesmo como num abismo silencioso. Isso não é nada bom!

Meus filhos, graças a Deus,  tiveram uma infância rodeada dos primeiros amigos: os primos. Eram, praticamente, todos da mesma época. A diferença etária entre eles era pouca. Agrupavam-se por afinidades e brincavam muito.  Entre 1981 e 1988 nasceram quase todos eles.

Até o nascimento do Danilo, parecia um clube da Luluzinha formado por: Taís, Mônica, Denise e Kátia. Veio, então o meu terrível Danilo fazer a diferença e agitar a galera. Em seguida, mais uma lady: a Elaine, a quem o Danilo adorava perturbar; logo chegou outro um garoto: o Bruno, para (talvez) ser cúmplice do Danilo  nas brincadeiras ou peraltices; minha princesa Patrícia não demorou para desembarcar e se juntar àquela galerinha cognata; os meninos reagiram multiplicando-se em: Franklin e em seguida,  Lucas.  Muitos anos depois, mais um menino: o Ramires, que não participou plenamente  das brincadeiras por ser o  caçula.. Essas crianças cresceram juntas e criaram um vínculo fraterno. Eu tinha o maior prazer em passear com os meus e levar quases todos os sobrinhos juntos. Como eram parecidos, as pessoas pensavam que fossem todos meus filhos. Hoje, olho para esses lindos e lindas e me custa acreditar que o tempo, magicamente, piscou o olho e os tornou adultos. 

A fase escolar proporciona diversos vínculos de amizade para a maioria das crianças. Danilo, embora tivesse vários colegas, não demonstrava tanto interesse em andar em bandos.  Quando atingiu a adolescência, estreitou seus laços a alguns deles e juntos formaram uma banda de rock que durou um determinado tempo.  Desse grupo faziam parte: Leonardo, Rafael, Caio e Bruno (o primo). Pareciam irmãos, tamanha a afinidade. : iam juntos a shows, cinemas, curtiam jogos e músicas. Até que outras prioridades ligadas à vida adulta,  parcialmente os afastaram. Porém, antes disso, Danilo quis homenagear o Leonardo convidando-o para padrinho do Gabriel e, dessa forma, a amizade e o contato deles se mantiveram.

Patrícia, a mais nova das meninas, era tratada como uma bonequinha pelas primas. Embora pequena e aparentemente frágil, nunca se submeteu aos meninos. Eles que não entrassem na linha! Uma autêntica baixinha brava! Na escola conquistou várias amigas entre elas: Verônica, Rose,  Daniele. Faziam todos os trabalhos escolares juntas em casa, brincavam, dançavam, cantavam, inventavam coisas... Um iminente dia, cresceram e se envolveram com os planos futuros. Patrícia foi estudar longe durante cinco anos e o contato se reduziu. Verônica se casou;  Daniele também. Esta quando teve o primeiro filho “Alyson”, escolheu a amiga Patrícia para madrinha, reativando e fortalecendo um elo de anos.

Interessante como o destino constrói os caminhos: traçando-os de acordo com a natureza dos fatos e as possibilidades de ligação entre eles. Por exemplo:  o filho da Daniele: o Alyson, é o melhor amigo do Gabriel, meu neto, e , além de se darem super bem, são parecidos não só na fisionomia como nos gostos e nas atitudes.

Os gêmeos Guilherme e Gustavo são igualmente muito presentes na vida do Gabriel desde bebês. Todos os aniversários, o primeiro pedaço de bolo, o Gabriel oferecia aos gêmeos. Essa amizade terá vida longa, pelos vistos.

Outrossim, não posso esquecer de mencionar as ilustres amigas-irmãs da Patrícia: Eleonora (Carinhosamente chamada de Lola); a Josiana (Josy)e Jamila, dentre outras. Essas garotas se conheceram na época da faculdade, moraram juntas em repúblicas e dessa época veio esse laço afetivo que até hoje permanece.

Em suma, as amigas são tantas, porém há um amigo em especial: Lucas, o primo. Eles, desde pequenos, são muito próximos e unidos,  confiam-se mutuamente, adoram se encontrar,  trocar presentes e (às vezes)  segredos, o respeito e carinho que um tem pelo outro é, no mínimo,  sublime.
O ensinamento dos pais não vem só pelas palavras, mas se concretiza no bom exemplo. Danilo e Patrícia, souberam, cada um a sua maneira,  cativar pessoas, formar elos significativos, respeitar e aceitar as peculiaridades que singularizam cada ser, guardando-o no coração à  sete chaves.


Zizi; 22/07/2016

domingo, 17 de julho de 2016

Ser madrinha é uma honra!

Tema: os padrinhos dele(a)

Ser convidado(a) para batizar alguém é, antes de tudo,  uma demonstração de carinho e confiança em nós e, ao mesmo tempo, representa uma homenagem carregada de um compromisso que acompanhará a função de madrinha/padrinho nos próximos dias e anos. É, portanto, uma decisão simples e complexa se considerarmos os vários ângulos de um mesmo olhar.

Se recebeu o convite, provavelmente já existe aí uma amizade com vínculo afetivo que, certamente, não encontrará obstáculos em permanecer-se. Por outro lado, a palavra “compromisso” tem uma relação próxima com alguns termos menos simpáticos como: obrigação/dívida/pacto/ peso/responsabilidade...que, de certa forma, assustam.

De acordo com a etimologia, a palavra madrinha (”de matrem, caso acusativo do latim mater, pronunciado madre no português dos primeiros séculos, de onde veio comadre, pela formação cum matre, com a mãe; depois commatre, segunda mãe, madrinha”), realça a importância de se ter mais alguém presente e preocupado com a educação da criança, além dos pais. É, portanto, algo significativo para aquele ser em evidência que precisará de todo apoio possível para lidar, futuramente, com um  mundo de improbabilidades,  sem perder a firmeza necessária.

O grau de agradecimento pelo convite e a dúvida se está realmente preparado para tal decisão são duas vertentes que,  a princípio, se mesclam e, em seguida,  se definem de acordo com a disponibilidade e agrado que o convite lhe causou. Se haverá possíveis encantos ou desencantos, dúvidas que somente o tempo responderá. Geralmente consultamos o passado para resolver o presente, mas nem sempre é uma regra válida, serve apenas como referência.

Causa estranheza saber que alguém que fora convidado para ser padrinho, desistiu por não concordar com a escolha da madrinha. E foi o que ocorreu comigo. Meu tio materno José, (carinhosamente chamado de Dedé) era o escolhido, mas não suportava a moça indicada para madrinha: Cosma (nome diferente, em homenagem a Cosme e Damião, figuras importantes na religião católica e em afro-brasileiras) Por isso cancelou sua participação no evento do meu batismo e meus pais tiveram que, às pressas, arranjar um substituto.  O indicado, então, foi um primo: Vicente, conhecido como “Teta” (obs. Pronúncia aberta e não fechada do “e” rss)

Fui batizada por: Teta e Cosma. Mas durante a minha vida a presença deles foi rara, salvo que ele foi também meu padrinho de casamento em 1982. Há mais de 45 anos perdi o contato com  minha madrinha e nem sei onde mora. Meu padrinho, eu o via esporadicamente na casa da minha mãe. Visitei-o algumas vezes há pouco tempo. Hoje, fazendo uma análise desse elo, eu afirmo que não houve uma interação plena e satisfatória de ambos os lados. Eu o considero mais como da família do que al guém intitulado “padrinho”.

Essa preocupação levou-me a refletir bastante na escolha dos padrinhos dos meus filhos. Todavia, eu nem tive tempo de decidir sobre o primeiro filho. Quando demos a notícia de que eu estava grávida do Danilo, um amigo do Marcos, o Manuel (chamado de Mané) se auto-convidou para padrinho com tanto carinho e boa disposição que foi impossível recusar. Afinal, ele era muito companheiro do meu marido e gostava da família. Durante a infância e adolescência do Danilo, Mané e Cidinha sempre visitavam o afilhado, conversavam, brincavam e traziam presentes. Depois que meu filho ficou adulto, esse contato se reduziu por diversos motivos: houve problemas de saúde da madrinha, lamentável tragédia na família dos padrinhos e, infelizmente, o falecimento da madrinha. As coisas tomaram outro rumo, mas a amizade com o padrinho se manteve;  de vez em quando nos esbarramos na rua, na feira e em visitas raras. 

Na segunda gravidez, os escolhidos foram Vera, a minha irmã caçula e Adélio,  o esposo dela, para padrinhos da Patrícia. Foi uma troca justa, já que eu e o meu marido somos padrinhos do filho deles: o Bruno. Essas crianças cresceram juntas. Nossa família se via toda semana. Eles sempre presentes participando de cada detalhe da vida da minha filha e eu fazendo o mesmo. Esse contato frequente foi extremamente significativo. Existe um carinho e respeito muito grande que perdura. Embora as obrigações do mundo adulto ocupem muito as pessoas reduzindo o seu tempo disponível, há os momentos de se ver, trocar presentes, contar piadas, compartilhar novidades, ensinar, aprender, etc...  Não há preço para isso.

As páginas do tempo foram passando e...meu filho foi pai bem jovem: aos 20 anos. Gabriel nasceu em fevereiro de 2004 e, novamente, a preocupação referente aos padrinhos brotou logo. Entretanto, eu era avó e não cabia decidir sobre o assunto (Sugerir sim, para não perder o hábito rss). Depois de estudar as possibilidades e indicações, meu filho e a mãe do Gabriel optaram pela escolha de amigos que não formavam um casal: Leonardo e Lílian. Ele: amigo de infância e adolescência do Danilo; ela: minha amiga, colega de trabalho que frequentava a minha casa e até hoje tem amizade com todos nós.

Leonardo aceitou de coração, mas um episódio fez com que a Lílian desistisse do encargo, abrindo, assim uma lacuna que deveria ser preenchida antes do batismo da criança. (acho que já vi uma cena bem parecida com essa há uns anos...).

Precisaria ser alguém que aceitasse, sem hesitação ser madrinha do Gabriel. E foi assim que entrei nessa história. Além de avó, sou a “madrinha chicletinho”, ou seja, muito presente,  que dá presentes, beijinhos, abraços, afagos, orientações, broncas, punições e tudo o que estiver ao meu alcance e for necessário para o bem dele. Se madrinha representa a segunda mãe (de acordo com a própria etimologia da palavra), então, cumpro o meu papel com muito prazer e orgulho. Obrigada, meu Deus, por essa graça!

Leonardo, padrinho do Gabriel, é uma pessoa muito ocupada com o trabalho, os estudos, a música, a família, os amigos, as viagens, etc., porém sempre arruma um tempinho para visitar o afilhado, sentar ao chão com ele e compartilhar jogos, brinquedos,  conversas, risos, informações. Eles têm muita afinidade, tornaram-se grandes amigos e aproveitam bem o tempo quando estão juntos para matar as saudades e se divertirem. Não se veem com a frequência desejada, mas a  qualidade e o carinho de quando se encontram, é visível e  compensa.

Uma tela é insuficiente para as pinceladas que representam enredos resgatados nas memórias mais antigas e nas recentes. Despejei parte delas neste painel de reminiscências e reservei o restante para (quem sabe!) uma eventual postagem na qual eu discorra especificamente sobre: Bruno, Cristiano, Paulinho, Gabriele, Lucas, meus outros queridos afilhados. Que Deus os abençoe!


Zizi, 17/07/2016

Ela é a síntese das sensações


Voz aveludada e colorida, toque meigo e balsâmico, olhar doce e brilhante... Sons, cheiros, sabores e cores se mesclam dando origem a um ser de alma perfumada que representa a síntese das sensações, uma espécie de sinestesia personificada.

Minha mãe vive em minhas lembranças e revive nas impressões sensoriais que falam em forma de saudades. Quando ela partiu,  foi muito difícil se desfazer dos seus pertences porque cada um deles traduzia, de certa forma, parte de sua personalidade.

Ela não tinha, por exemplo,  uma preferência por um determinado perfume. Sua penteadeira era preenchida por fragrâncias diversas e uma infinidade de cremes  que  utilizava diariamente, pois  era vaidosa e gostava de estar sempre cheirosa e bonita. O aroma perfumado da minha mãe difundiu em cada cômodo e no interior daqueles móveis,  cujas gavetas, tão cheias e bem organizadas, exalavam o cheiro de uma vida.

A cozinha,  aquele santuário de  sabores e de aromas, guardou para sempre o segredo do tempero dela que eu associo ao enorme prazer em preparar quaisquer refeições: do simples cafezinho às ocasiões festivas com mesas fartas e variadas. Além do paladar singular com gosto de “quero mais” , um cheiro irresistível daquela comida invadia a rua e contagiava  vizinhos e transeuntes.

Tantos outros cheiros participaram dos seus 75  anos de existência:

O cheiro da alegria nos sorrisos e nas risadas desmedidas com histórias hilárias ou em brincadeiras carinhosas com a família e amigos.  O cheiro suave e doce do carinho materno nos momentos de colo, ombro ou cafuné sempre disponíveis, mesmo em meio a dez netos... O cheiro duradouro e exemplar da parceria matrimonial que durou cinco décadas  e, com efeito,   perpetuou-se nos descendentes. O cheiro persistente que não sucumbiu às dificuldades da vida porque seu otimismo falou mais alto e pode, assim,  presenciar várias vitórias. O cheiro convicto da fé em Deus que fertilizou os brotos e edificou suas sementes, garantindo a propagação dos bons ensinamentos...

Entretanto, a frágil saúde, vinculada ao irredutível relógio do tempo, possui limitações e não hesitou em alterar  o alegre cheiro da vida pelo triste odor da partida. Então, ela foi para outro plano, provavelmente descobrir novas fragrâncias...


Zizi, 08/07/2016

sábado, 2 de julho de 2016

A melhor canção: filhos e netos


Paródia da música: "Velha Infância"(Tribalistas)

Vocês são para mim
O princípio sem-fim
Que habitam meus momentos

E os preenchem de cores
Um arco-íris de amores
Que, com carinho, acalento.

Meus eternos bebês
Vidas que elevam o meu ser
Sorrisos lindos que iluminam
De uma forma toda especial.

Eu me encanto
Em cada canto
Com as memórias que o tempo traz

E os revivo
Nestas histórias
Cujos enredos são bem reais.

Sou muito grata a Deus
Por tudo que Ele concedeu
Bênçãos, Filhos e netos
Tornam os dias  completos.

Vocês são para mim
Flores de um lindo jardim
Que rego com alegria

Sementes que germinaram
Plantinhas que povoaram
Os versos desta poesia...

Zizi, 02/07/2016

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Brinquedos são asas

Tema: O brinquedo preferido

Em qualquer época da história da humanidade o brinquedo foi algo indispensável para o desenvolvimento do ser humano. Meus pais contavam que, devido às dificuldades econômicas,  eles mesmos montavam os carrinhos feitos de madeiras, bonecas de pano ou de milho verde, além das brincadeiras inventadas que os divertiam muito.

As gerações posteriores não vivenciaram tais problemas dessa forma, pois a tecnologia em parceria com o capitalismo trabalharam juntos para oferecer às crianças um leque de possibilidades lúdicas, umas estimulando a imaginação, outras, nem tanto. Embora o objetivo geral do brinquedo seja o entretenimento, há uma função mais específica em seu manusear, cuja criatividade pode ser necessária ou não.

Durante algum tempo, vamos oferecendo aos filhos o que consideramos pertinentes à idade deles. Eu não descarto os carrinhos, bicicletas, pipas, bolas nem as bonecas e acessórios das casinhas, mas sempre simpatizei com brinquedos criativos ou aqueles que exploram a fantasia  da criança ao serem manuseados. Mesmo assim, não fui tão seletiva e mostrei várias opções, deixando (quando possível),  a escolha por conta deles.

Por isso,  minha casa nunca pareceu um centro cirúrgico, os brinquedos reinam...

Brinquedos intocáveis e guardados em caixas,  somente o período em que estavam nas lojas.  Depois que iam para o nosso lar, seu universo se estendia  aos cômodos e quintal e entravam em nosso contexto. Eu, ora participava das brincadeiras com meus filhos, ora fazia valer a autoridade materna, solicitando a organização daquela bagunça colorida e deliciosa.

O Danilo possuía muitos brinquedos os quais somente viviam seus minutos de glória e  prioridade no momento em que os ganhavam, ou seja, ele não se importava em vê-los nas mãos de outras crianças, não era possessivo,  tampouco cuidadoso com os seus pertences. Gostava de brincar com alguém e não sozinho. Havia os tradicionais (carrinhos, bolas); sonoros (instrumentos musicais e outros) e os mais moderninhos:  lúdicos (jogos e de montar); bichos, trenzinho e carros de controle de remoto e/ou à pilhas, livros-brinquedo, espadas, vídeo-game... Quando ganhou o primeiro triciclo ele ficou encantado!  Pedalava de um canto para o outro em movimentos circulares fazendo peripécias com essa nova aquisição. A meu ver,  foi o brinquedo que ele demonstrou mais entusiasmo. Depois, veio a bicicleta para umas voltas e aventuras pelo bairro.
 
Entretanto, ao perguntar ontem qual sua preferência em relação aos brinquedos que tivera, surpreendi-me quando afirmou que era o trenzinho movido à pilha. Faz sentido: ele sempre foi fascinado por velocidade. O tal trenzinho sobreviveu heroicamente à infância e adolescência do Danilo.  Aos vinte anos foi pai,  e seu filho (Gabriel) também  usufruiu desse privilégio (com restrições, é lógico!).

A Grande Miúda Patrícia teve os mesmos mimos do irmão em relação à diversidade de brinquedos, porém acrescentando: carrinhos e outros acessórios das “tantasss” Barbies e outras bonecas,  muitos bichos de pelúcia; móveis de madeira para brincadeiras de casinha; a indispensável bicicleta, livros-brinquedo, canetinhas para riscar as bonecas e as paredes, etc. Tinha acesso a todos os brinquedos do irmão e às vezes brincavam juntos (até desencadear uma briguinha básica). Existe até hoje em casa uma boneca que ela deu o nome de Viviane (em homenagem a uma vizinha que ela gostava muito) e foi a única não doada. Contudo, quando perguntei a ela qual o brinquedo que marcou sua infância, respondeu que era aquele que mais estimulara sua imaginação e por isso a carregava sempre consigo: a casinha da Ninoca. E explicou que se divertia muito ao criar as roupas de papel e vestir a Ninoca,  reinventando situações na casinha e compartilhando as emoções. Esse livro-brinquedo foi adquirido uma vez em que fomos juntas a editora Ática e, enquanto eu  escolhia uns livros, minha filha apaixonou-se pela novidade e eu lhe dei de presente.

Há outro fato marcante referente ao tema com outro protagonista:  o Gabriel, meu neto. Os brinquedos que ele possuiu e possui representam, em média, o dobro em relação ao pai e à tia. Nadava em brinquedos variados, porém quando pequeno sua paixão pelos dinossauros era impressionante. Conhecia todos os tipos e características de cada um, sabia tudo sobre esses gigantes e antigos habitantes do planeta. Dizia que seria paleontólogo para saber mais sobre eles. Em casa tropeçávamos em dinossauros por todos os cantos: brinquedos, livros, filmes, revistas, desenhos, etc. Gabriel foi levado a exposições desses bichos para saciar sua curiosidade e encanto. Uma das suas festas de aniversário teve o tema e não foi nada fácil conseguir montar. Com o tempo, ele se interessou por outros assuntos, aderiu à tecnologia (adora jogar no computador e vídeo-game), mas até hoje quando vê algo sobre dinossauros fica atento. Pensei que esse fascínio faria do dinossauro seu favorito e me enganei novamente:  ele esclareceu que o Lego é o melhor brinquedo. Deve ser pelas infinitas possibilidades de criação: montar, desmontar e remontar. Um brinquedo que não possui um fim em si mesmo, ele é um instrumento para a imaginação voar quantas vezes forem necessárias.

A infância, esse período do possível, atua de forma mágica, pois capacita a criança a lidar com o mundo adulto. Ao brincar, ela reflete suas experiências de vida e consegue reconstruir sua realidade a partir do seu olhar e dos seus anseios. Os brinquedos vão além do entretenimento: são companheiros que auxiliam na compreensão de si, do  mundo  e das  demais pessoas. Não é justo negar aos filhos esse direito...


Zizi, 25/06/2016

Ter ou não ter desejos? Eis a questão!

Tema: Desejos de grávida

Estar grávida é abrir seu mundo para um novo ser que nos provocará alterações físicas,  psicológicas e emocionais durante o tempo em que fazemos o papel de casulo daquela frágil vida que se inicia.

Embora a fase ocasione alguns desconfortos como: inchaço, dores nas pernas ou costas, aumento de peso e outros sintomas, nenhuma outro momento nos concede um tratamento tão majestoso como esse. Tornamo-nos, praticamente, o centro das atenções como uma rainha,  visto que todos se colocam à nossa disposição para atender quaisquer pedidos ou prováveis desejos. Não é nada mal ser encarada como prioridade. São tantas as histórias de bebês que nasceram com manchas disso, manchas daquilo porque não tiveram suas vontades saciadas no feto, e, certamente,  ninguém deseja carregar para o resto da vida a responsabilidade pela negligencia de um não à uma grávida.

Toda gravidez gera um poço de expectativas tanto para as mamães como aos demais interessados. Nunca sabemos como será nesse período porque dificilmente acontece da mesma forma.

Eu fui a última filha a se casar e também a engravidar. Meus olhos e coração acompanhavam as experiências das integrantes da família para servir como base. Entretanto, quando chegou a minha vez, só soube que estava grávida devido a ausência  das regras e, posteriormente,  o exame confirmou. Eu nunca me senti tão bem disposta!

Minha rotina era agitada porque eu sou “ligada na bateria”. Gostava de ir para a casa da vizinha pulando o muro, ao invés de dar a volta e entrar pelo  portão; adorava andar de bicicleta e não parei. Ía de um canto para outro as pedaladas enquanto a barriga, progressivamente, ia tomando sua forma devida; quis mudar a cor da casa e fiz isso faltando cerca de duas semanas para o nascimento. Para mim não havia problema algum subir e descer de alturas consideradas perigosas para o pessoal. Lógico que minha mãe e sogra me advertiam muito por esse meu jeito “normal” de ser. De tanto buzinarem em meu ouvido, reduzi os passeios de bicicleta e esqueci, temporariamente o muro, mas não estacionei, lógico, apenas troquei pelas longas caminhadas. Ía e voltava toda semana à casa da minha mãe e irmãs a pé, totalizando um percurso de quatro quilômetros  (não é muito, eu sei.) Tarefas de casa, continuei fazendo todas com a mesma      

intensidade de antes. Como eu afirmei, eu me sentia cheia de coragem, gostava de estar a frente de tudo e na minha vida nunca houve espaço para manhas. Meus pais contavam que quando criança eu não gostava que me carregasse no colo, eu queria ir ao chão para andar ou correr livremente.

O único desconforto, que não é consequência da gravidez e sim do meu ritmo acelerado também para comer,  foi a azia que já me fazia companhia há tempos e até hoje não me abandonou. Sinceramente, eu não acreditava nesses desejos de grávida. Aos meus olhos,  eram dengos dessas mulheres que se aproveitam para comer coisas diferentes e brincam de marionetes com os maridos para se divertirem. Eu nunca senti desejo por algo que fugisse da minha alimentação cotidiana. Lógico que comida dos outros eu sempre gostei (principalmente da minha mãe), bolos, sobremesas, frutas, sucos, comida gostosa são bem-vindos sempre. A nossa gula de cada dia está sempre dizendo “SIM” às delícias gastronômicas,  enquanto o dedo indicador da mão direita balança de um lado para outro: “tsc, tsc. Tsc, tsc”, reprovando aquilo tudo. Eu, indecisa, ora dou crédito a um, ora a outro, e o resultado fica visível: uns quilinhos salientes...

Após acompanhar outras experiências maternas de irmãs e amigas, amadureci o conceito de que desejos são “frescuras”. Não é porque eu não passei por isso que ele não exista. Minha prima quis comer o barro do filtro de água, a outra amiga comeu tijolo, pedaço de pau e tantos outros exageros. Uma história mais bizarra que ouvi foi que uma mulher grávida sentiu desejo de morder o calcanhar de um padre (porque o pé dele era tão branquinho! Deve ter associado a um queijo kkk)

Um novo ser dentro de nós não é apenas um elemento a mais que carregamos. Enquanto o alimentamos e contribuímos com sua formação, outros desenvolvimentos estão concomitantemente em ação e todo o processo acontece em nosso interior. Portanto, são evidentes as alterações como: sensibilidade à flor da pele, sono ou insônia, disposição ou preguiça, fome ou fastio, enjoo, mudanças de humor em nosso psicológico durante esse período. Como prova disso, basta observar que após o nascimento do bebê, progressivamente,  voltamos ao estágio inicial. Nem temos mais tempo de ficar preocupada com detalhes insignificantes: algo maior e mais importante nos aguarda, uma nova missão:  “Mãos à obra, MAMÃE”!!


Zizi, 18/06/2016

sábado, 11 de junho de 2016

Birras passam, a essência fica...

Tema: Uma pirraça que marcou


Nome de anjo, cabelos cheios e levemente loiros, cacheados, bochechas avermelhadas, lábios carnudos,  olhos castanho-escuros completam, de forma harmoniosa,  um rosto arredondado,  de expressão pura, dócil e gentil com um sorriso tranquilo e muito sossego no andar e no falar. Embora novo, é alto e forte, mas não utiliza essas características físicas como estratégia para se prevalecer sobre os outros. Ao contrário, se precisar ele trata e cuida  dos pequenos com muito carinho e cautela, gosta de ler e de contar histórias para  eles. As crianças o adoram e sempre o rodeiam, onde quer que ele esteja. Sua beleza interna se mescla à  externa. Dividir o lanche com os coleguinhas não é problema algum, faz isso de coração aberto. É sensível aos problemas alheios. Ama os bichos, sabe muito sobre eles porque adora assistir reportagens que abordam o mundo animal. É um defensor intenso da preservação do meio ambiente. Os fatos históricos, geográficos  e mitológicos atraem muito a sua atenção. Gosta de ler e de desenhar. Sua timidez o torna um observador maior que falador, principalmente na frente de estranhos.

Essa soma de características  traçam o perfil de alguém que me faz companhia e  me fortalece de uma forma tão plena que transforma meus momentos difíceis em apenas fatos a serem superados,  pois quando ele fala na sabedoria de  Deus, seus olhos brilham. Se está próximo, fico mais tranquila, confiante e feliz. Por estas e outras, acredito que o nome traz uma energia e representa o ser. Pesquisei, então, o significado de “Gabriel” e me certifiquei de que ele fora mesmo enviado à minha casa para iluminar cada pessoa que lá habita. Sou muito grata por essa dádiva.

Entretanto, ao mesmo tempo em que me deleito com as descrições acerca do meu neto e agradeço todos os dias sua presença em minha casa, eu recuo algumas páginas da memória para resgatar episódios hilários e reais que retratam situações bem embaraçosas protagonizadas pelo mesmo menino e que não combinam “nadica” com as exposições dos primeiros parágrafos.

Gabriel  adorava passear em shopping para se divertir com os brinquedos e ficava muito bravo quando entrávamos em uma loja para comprar-lhe roupas ou sapatos. O drama começava quando tinha que experimentar qualquer roupa. Entrávamos com ele no provador, fechávamos a porta para vestir-lhe a roupa nova. Porém, ele chorava e gritava de modo escandaloso: “Socorro!, socorro! Alguém me ajude!! E repetia isso quantas vezes fosse necessário, até abrirmos a porta e nos depararmos com o olhar fulminante e acusador de todos que lá  estavam. Parecia que as pessoas acreditavam que estávamos judiando dele. Para evitar maiores conflitos, ou saíamos sem comprar nada,  ou comprávamos sem experimentar nele. Não adiantava falar com ele. Punir seria pior, daí sim as pessoas teriam certeza de que o menino fora torturado. (Absurdo!!)

As lojas eram seus locais preferidos para deixar fora de órbita as três corujonas: mãe, tia e avó. Talvez porque esse ambiente o privava da apreciada liberdade e da incansável vontade de brincar. Forçava uma escapadinha, e num piscar de olhos, sumia e se escondia embaixo das araras nas roupas dos cabides. Lá se iam, novamente, as três desesperadas descobrir onde ele se escondera dessa vez...

Outra birra marcante desse meu querido foi com a água. Um autêntico peixinho-bebê. Não podia ver água em grande quantidade (piscina, rio, mar) que se atirava com roupa e sapato, sem nossa permissão. Não se contentava em passar a mãozinha ou os pés na água, ele queria mesmo era mergulhar! Na maioria das situações era impossível permitir esse acesso por motivos diversos: frio, festa de formatura, casa dos outros, água suja, etc. Mas ele não compreendia nossos motivos:  gritava,  chorava e corria para se molhar de qualquer jeito, mesmo no inverno. Era um “Deus-nos-acuda”!. A confusão estava armada! A festa perdia a graça...

Eu me arrepiava só em pensar na possibilidade de o Gabriel ser tão traquina quanto o pai dele: o Danilo,   Nos primeiros anos pareciam repetição de cenas de um velho filme conhecido (rss).
Um dia estávamos em outra  loja e o Gabriel sentiu vontade de urinar e não nos avisou. Foi em direção de um bebedouro de água e o fez de alvo. Tivemos que sair às pressas antes que alguém da loja fizesse a devida reclamação.

No supermercado, ele abria os bracinhos e derrubava tudo que podia...

No cinema, fugiu de mim e da tia durante uns 15 minutos. Foi o pior perrengue da minha vida!  Eu fiquei tão mal que levei anos para me recuperar do susto. Na verdade, até hoje (dez anos depois)  eu fico tensa quando saio com ele e o perco de vista. 

Uma noite, depois de ter assistido a um filme que mostrava como nasciam os patinhos, Gabriel  levantou à  noite, foi  à cozinha e trouxe vários ovos e os colocou embaixo de mim . Queria que nascessem pintinhos e para isso precisava de uma galinha: Euzinha!! (Olha que honra!!)

Traquinagens e/ou pirraças são definições que os adultos criaram para classificar manifestações pueris movidas pela curiosidade ou ações de protesto. Na verdade,  eles estão apenas crescendo e querem explorar, empiricamente,  esse mar de possibilidades que o cercam,  sem noção alguma de causa e muito menos de consequência.

Como avó,  eu tive mais paciência em lidar com situações dessa natureza, talvez porque já passei pela experiência de mãe e havia tantas histórias para contar... Essa afirmação não significa que eu seja permissiva para prováveis exageros do Gabriel. Afinal ele é um adolescente com 12 anos. De acordo com a situação, falo sério e uso a punição pertinente. Afinal, quero deixar um homem de bem, responsável,  consciente dos atos e útil à sociedade. Minha experiência materna por duas vezes concedeu-me essa graduação que faço valer pela terceira vez, com o mesmo sucesso, espero...


Zizi 11/06/2016

Pirraça e suas marcas


Tema: Uma pirraça que marcou

Se fôssemos dividir a nossa vida em dois momentos proporcionais às relevâncias dos fatos, sem dúvida seria antes e depois de ser mãe. Essas duas experiências significativas resumem o trajeto linear representado pelas fases de criança à adolescente e de adulta à mulher.

Desde bem cedo, aprendi que os triunfos não estavam associados às chantagens emocionais e muito menos às birras ou pirraças. Ainda que não concordasse, nunca atropelei uma determinação dos meus pais porque eu era apenas uma gota em meio àquele poço de sabedoria e de amor.  Tinha muito que aprender antes de tornar-me sujeito das minhas decisões.

A princípio, como filhas, vivemos sob condições impostas, um espécie de liberdade guiada pela sabedoria dos pais, para o nosso próprio bem,  quer concordemos ou não (Só descobrimos isso anos mais tarde)

Depois que os papéis se invertem, sentimos o irrecusável peso da responsabilidade tocar-nos as costas e, de mansinho, estabelecer-se definitivamente em nosso ser.  O relógio inicia, então, a contagem do tempo: é hora de colocar em prática os ensinamentos que tivemos para melhor guiar, orientar, educar nossos filhos.

Ninguém nasce mãe, é um processo que ocorre junto com a gestação e vai amadurecendo no dia-a-dia. A vontade de aprender e fazer tudo da melhor forma possível supera a habilidade para tal. Por isso, impossível evitar algumas gafes quando se deseja encarar, de fato,  a maternidade.

Flechada pelo Cupido, aos 20 anos assumi o matrimônio dando início a outra etapa da vida que já dura 34 anos e que  floresceu  com a chegada dos filhos e depois,  dos netos.

Com a chegada dos dois rebentos, meus dias estavam plenamente preenchidos, dois olhos mal conseguiam  acompanhar  o ritmo das peripécias de ambos. Danilo, movido pela curiosidade, carrega consigo a medalha de ouro da teimosia. Patrícia, que nunca gostou de papel subordinado, merece o troféu da argumentação.

Danilo escutava todos os conselhos, mas só seguia aqueles que iam ao encontro dos seus objetivos, ou seja, nenhum! Foi assim que quase se perdeu numa multidão;  queimou a mão em uma fogueira de S João; conheceu a sensação desagradável de um choque elétrico ao mexer numa tomada, sentiu nas mãos o calor de um ferro elétrico ligado, tomou várias ferroadas de abelhas, ficou preso dentro do capô de um  veículo portando a chave,  etc. Todos esses inevitáveis incidentes na infância e parte da adolescência foram consequências de sua clássica desobediência. Como adulto,  menos inconsequente e mais cauteloso, surpreendeu pela dedicação e senso de responsabilidade ao lidar com suas obrigações e escolhas. Porém, a teimosia ainda mostra suas garras, preferindo, muitas vezes, aprender com os próprios tombos.

Patrícia, com poucos meses de vida, descobriu uma forma infalível de persuasão que a acompanhou durante alguns  anos e quase nos enlouqueceu: ela não podia ser contrariada de forma alguma que perdia o ar e passava mal. Tinha que ser socorrida às pressas, jogada para cima, sacudida, soprada. Imagine o desespero meu e de todos da família com medo que acontecesse o pior. Algumas pessoas afirmavam que aquilo era encenação dela, ou seja, pura manha,  e que eu deveria dar uma palmada para assustá-la. Não concordei com essa  ideia e preferi seguir a minha intuição e os conselhos médicos: quando ela ameaçasse perder o ar, eu deveria sair de perto e observar de longe, sem que ela me visse. Dessa forma, caso precisasse eu poderia socorrê-la. Quando percebeu que aquela cena repetitiva já não provocava tanta atenção, aos poucos, ela parou. Até hoje eu não sei explicar com exatidão o que acontecia com a minha pequena ou qual a natureza daqueles dramas... Talvez aquela reação estivesse relacionada ao forte temperamento dela que se manifestou de formas diversas e marcantes em outras tantas cenas da vida...

Dois filhos, dois mundos que eu amo igualmente de forma incondicional e me delicio ao rever suas histórias de traquinagens, confusões, ações e reações que,  aos meus olhos,  virou uma canção cujas notas perpetuam docemente dentro deste coração materno que pulsa por eles...


Zizi Cassemiro, 08/06/2016