sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Tema: Detesto quando ele faz isso.

Ele teimoso, ela indiscreta

Quando nascem parecem uns bibelôs: os lindinhos
e as  lindinhas permanecem onde os colocamos, vestem o que escolhemos, comem o que oferecemos... Nutrem o nosso ego porque criam a ilusão de que estamos no controle. Todavia, esse “éden de areia” vem abaixo  assim que descobrimos que aquelas figurinhas se mexem, se arrastam, se escondem, derrubam, põem, tiram, quebram, rasgam, amassam, recusam, respondem, devolvem, provocam, brigam, batem, apanham, teimam (e como!!);  enfim,  tem personalidade própria e fazem questão de deixar isso bem claro para nós. 

Pode parecer desanimador, mas é pura orientação empírica: os anos não se preocupam em reduzir essa enxurrada de verbos citados; eles apenas os aperfeiçoam e nós, mães, continuamos de mãos atadas em companhia de um elemento que não falta no nosso mundo materno: o efeito surpresa. Por isso redobramos os cuidados a fim de evitar iminentes contratempos: enquanto um olho cuida dos pequenos, o outro circula para detectar prováveis riscos. Será que resolve?

Inúmeras foram as situações complexas que tanto o Danilo quanto a Patrícia me fizeram passar. Ele, sendo o mais velho,  queria mostrar serviço e se prontificava a ensinar tudo de errado para a irmãzinha.(ainda bem que ela não repetia todas as façanhas do “nosso herói”). Muito peralta e teimoso como uma porta, chegou até o absurdo de enfiar a mãozinha na fogueira (época das festas de São João) para sentir a temperatura do fogo. Uma vez, escalou meu  guarda-roupa, quanto chegou ao topo, mirou no alvo (minha cama) e alçou voo. Só escutei o “Crash”. Tinha atração pelo perigo. Adorava  lutas marciais e treinava na irmã. A miúda aprendeu a se defender bem cedo devido às brincadeiras grosseiras do irmão. Como brigavam os dois! Ele se divertia só de perturbá-la. E na hora da comida? Ai, que drama! Ele não queria comer nada que fosse saudável. Eu comprava colheres de aviãozinho, pratinhos com desenhos diferentes, etc. Nada funcionava! Contava a ele que existiam muitas crianças na rua que dariam tudo para ter um pouco de comida, pelo menos; ele me respondia “Então a senhora deve ir lá e dar essa comida para eles”. Discursos  materno e paterno não faziam efeito no Danilo; avô, avô, tia, mãe e pai eram insuficientes para estar de olho nele. Não sei onde cabia tanta teimosia naquela pequena criatura! 

 Ela, por sua vez, não carregava o troféu de teimosia como  ele; sua estratégia era observar, planejar e agir. Caso pressentisse algum perigo, era a primeira a soar o alarme. Não me dava trabalho, não revirava minhas coisas, até me ajudava a olhar a casa, parecia uma pessoa adulta (nas atitudes). Eu sabia que estava tudo perfeito demais para ser verdade, até que descobri sua característica peculiar: ela tinha(e como tem!)  excesso de franqueza.  A princípio, parece uma virtude, mas quando somos testemunhas de palavras que são ditas no momento errado para a pessoa errada e não podemos impedir, ai meu Deus, que vergonha!! Como essa menina me fez enrubescer!!  As palavras: sigilo e ponderação não faziam parte do seu vocabulário. Sua franqueza aliada à coragem promovia eventos inesquecíveis: articulava assuntos confidenciais ou familiares para quem não devia; fazia comentários ou perguntas indiscretas à pessoas de cerimônia; adorava desenhar  pessoas (adultas) e depois presenteá-las com o desenho, mas havia um detalhe marcante nesses traçados: elas estavam nuas. Para ela, os seres deveriam ser representados da forma mais natural possível, por isso o nu. Na filmagem da formatura do Pré, quando a câmera a focalizou, ela estava desenhando docemente. Ao perceber que estava sendo filmada,  ela olhou, sorriu e mostrou o dedo do meio.   Enfim, aquela pequena criaturinha era uma pimenta que suscitava situações constrangedoras na maior inocência. Aquele bendito pedacinho de língua não tinha freio! E, em outras situações que a irritava, como argumentava bem! Deixava o interlocutor sem resposta. Uma perfeita versão humana da Emília de Monteiro Lobato.  Nunca me esqueço da vez em que ela, com a melhor das intenções,  quis me homenagear e ao ouvir uma aleatória sugestão do padre,  levantou a mão e me indicou para fazer uma mensagem (de improviso) aos fiéis numa cerimônia religiosa e eu não pude recusar (quase enfartei,  a igreja estava lotada). 

Tenho saudade de tudo referente a eles, sobretudo das travessuras do Danilo e das indiscrições da Patrícia. Na época eu “descabelava” como uma louca para acompanhar aquele ritmo. Eu brigava com eles, os punia, colocava-os de castigo, obrigava-os a andar de mãos dadas devido às brigas, os meus sermões eram para martelar mesmo naquelas cabecinhas., porém sabia separar os assuntos distintos: na hora de bagunça e brincadeiras, lá estava eu rolando por cima deles e me divertindo com os gritos. 

Logo o rapazinho tornou-se adulto e pai bem jovem e foi encarar a profissão conquistada com tanta garra.  A mocinha saiu de casa para estudar longe e preparar o seu amanhã. Ele teve pressa de crescer e ficou mais sisudo, menos brincalhão, mais cauteloso, menos peralta. Ela aprendeu que na casa dos outros não havia tanta prioridade quanto na sua.  Ele percebeu que  a cobrança do mundo lá fora é maior que a dos pais. Ela manteve sua carinha de menina dócil, mas com as garras afiadas, só para se garantir.

 Esses são os meus rebentos que provocam em mim as sensações mais adversas que vão desde  uma lágrima que escorre chamada saudade,  ao brilho mágico quando meus olhos encontram os deles...

                                                                           Zizi 16/12/2011

sábado, 12 de novembro de 2011

Língua Portuguesa

Como e porque o ensino de Língua Portuguesa no Brasil passa de beletrista a  procedimental.

O objetivo desse texto é tecer algumas reflexões acerca do ensino da Língua Portuguesa no Brasil,  observando  seu contexto histórico-educacional do  século XIX,  cujo  modelo de ensino implantado permanecera  (quase) inalterado até metade do século XX.  Até esse período mudanças poucas e lentas aconteceram, embora  conservassem, entre elas,  um ponto em comum:  a prioridade com a norma culta da linguagem e a preferência pela leitura canônica,  visto que,  naquela época,  o ensino era voltado à uma minoria pertencente à elite,  e a “seleção homogênea” facilitava  tanto a organização estrutural do ensino como aplicação das  metodologias educativas.

Entretanto,  essa “estaticidade educacional” foi alterada  com o ingresso de um maior número de alunos oriundos das camadas menos favorecidas economicamente. As escolas deram oportunidades a todos, numa tentativa de reduzir e, quem sabe, eliminar  o analfabetismo, pois essa ignorância  nas letras impedia, de certa forma, o desenvolvimento do país. Em alguns anos já se obtinha uma redução significativa do número de analfabetos.

A nova demanda escolar caracterizava-se, principalmente, pela diversidade étnica-social-cultural e por isso não estava mais em sintonia com o antigo sistema educativo. Precisava ser levado em conta o novo perfil da clientela escolar que se formara. Tal detalhe acelerou as iminentes mudanças no sistema de ensino. A começar pela reorganização dos currículos em três áreas: Comunicação e Expressão (que abordava a disciplina Língua Portuguesa), Estudos Sociais e Ciências. Havia, ainda, outra área destinada ao ensino técnico que preparava a profissionalização.

A partir dessa nova divisão das disciplinas no ensino, cujos objetivos foram reconfigurados e dos novos perfis docentes e discentes, o ensino da língua materna começa a perder sua característica beletrista  e passa a procedimental.  Assim, toda a ênfase atribuída ao processo comunicativo estava diretamente relacionada ao contexto histórico  daquele momento: a valorização dos meios de comunicação, em especial a televisão e à mídia. Os textos que circulavam nesses veículos não eram literários, e, por isso representavam mais a realidade dos alunos do que o conteúdo de poemas e  romances tão apreciados outrora. A gramática também perde parte da sua força para práticas de leitura e produção textual. Foram meios de tornar o ensino-aprendizagem algo mais prático e ao mesmo tempo eficiente.

 Contudo, não é tão simples assim lidar com grupos heterogêneos e obter um bom resultado, visto que cada integrante já traz consigo uma marca lingüística, cultural, religiosa, social-econômica, além da personalidade, que não podem ser ignoradas. O que ele busca não pode entrar em choque com o que ele possui. O aprender deve ser um acréscimo e não uma exclusão de itens.

Muitos estudiosos preocupados com a aprendizagem e o baixo nível  da língua escrita e falada dos alunos, divulgaram suas críticas em documentos que influenciaram as propostas curriculares, dentre alguns destaca-se João Wanderley Geraldi.

A gramática continua nos conteúdos, não na liderança como antes; ela acompanha o ensino da língua para tentar manter uma unidade, mas não ignora a valorização dos gêneros textuais;  convive, agora, com outras modalidades lingüísticas menos privilegiadas socialmente que começam a ser trabalhadas na escola.

Por outro lado, é evidente que o domínio da gramática normativa não garante uma boa produção textual. Tendo em vista tal fato, o novo desafio é capacitar o aluno à práticas de leitura e produções textuais já  que ele está tão defasado em ambos. Formar um leitor não é apenas conseguir a sua apreciação por textos de obras clássicas ou a reescrita delas; é fazer seu conteúdo ser significativo, interativo e formativo.  Depois, consequentemente, vem a  produção de textos. A motivação para  a leitura direciona ao estudo e afins.

Vários textos tentam justificar o porquê da dificuldade e resistência dos alunos em relação à leitura e escrita. Em seus estudos, Rojo(2004) descreve os procedimentos, as estratégias e as práticas de leitura e escrita que contribuem para esse quadro. Um texto não possui um fim em si mesmo, mas é o resultado de um processo longo que começou desde seu nascimento, do contato com o outro, de sua aprendizagem familiar e social, de suas leituras de mundo, de seu amadurecimento como cidadão e por último, das tantas leituras e aquisições advindas de conhecimentos escolares.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Tema: Adoro quando ele faz isso!


                                         Acalanto

Se as mães que estão vivenciando a linda fase da infância junto a seu filho, acham difícil selecionar, entre tantos, um momento especial para um registro; imagine eu,  com a linha do tempo um pouco mais estendida e os filhos adultos que já criaram asas e voaram do meu ninho!
Não quero com isso dizer que não me lembro, ao contrário; são tantas lembranças que mal cabem nessa esfera achatada conhecida como cérebro. Não me custa nada vendar os olhos, girar em círculos e lançar o meu anzol em direção a esse cardume (Afinal eu contribuí, efetivamente, para essa farta pescaria).  Vamos lá: Zip-zup!!
Um choro interrompe e bloqueia os pensamentos desta mãe que transformou os fragmentos do dia em tempo integral para sua prole. O período entre as alimentações, as  trocas de roupas, os banhos, os cuidados, os carinhos, as brincadeiras,   monopolizam as horas e, assim, já anseio por um merecido repouso, concedido (talvez) quando aquela pequena criatura decidir cair nos braços de Morfeu.
Espera em vão. Quem disse que ele dispensaria aqueles mimos todos para imergir no mundo onírico? Para que,  se o colo quentinho e macio já fornecia, gratuitamente, o que ele precisava?
Eu, porém, finjo ignorar essa teimosia retratada naqueles olhinhos brilhantes e mãos inquietas.  Pacientemente, o acomodo nos braços e percorro, devagar, os metros quadrados do dormitório, alcanço o corredor que dá acesso à cozinha. Viro-me e faço o mesmo trajeto de volta: uma, duas, três, quatro, cinco....dez vezes (ou mais)
...E a saga continua, realçando seu caráter lírico e épico. Tudo indica que o minúsculo e ousado adversário propôs um desafio impossível de ser recusado e que requer uma tomada de atitude instantânea e eficiente. (Pelos vistos, tamanho não é documento mesmo!)
O tic-tac do relógio caminha desprovido de parcialidade. Não há ao que, nem a quem recorrer. Na pequena arena do quarto-corredor-cozinha estão somente os dois, sem platéia. Contudo, antes de levantar a bandeira branca para a rendição, apelo para um último recurso: embalar com música. Mas qual delas: infantil, romântica, sertanejo, gospel, valsa..? Escolha aleatória, desde que funcione.  Cantarolei, então, a primeira que veio à mente. Uauu, deu certo! Por isso,  a mesma melodia, depois, virou canção de ninar e propagou-se nos dias e dias seguintes. Até que...
Cumprindo mais uma etapa meu do dia, eu estava novamente acalentando o meu pequeno com o mesmo sonífero musical. Por algum motivo (que não me lembro),  parei num determinado ponto da música e me calei. Qual a minha surpresa: o pequenino continuou o verso e o finalizou. Reiniciei o segundo verso com duas palavras e o deixei concluir. Fiz isso até o final da música e descobri que ele havia memorizado toda a letra. Achei o máximo! Vibrei! Contei para todos. Precisava compartilhar esse momento que era grande demais para ser só meu.
Adorei vê-lo fazendo isso. Aquele pedacinho de mim já iniciara sua contínua evolução, suas descobertas, com as mãozinhas emboladas em meus cabelos, ouvidos atentos, olhinhos confiantes, respiração suave. Estava em paz e seguro ao som de uma singela canção de ninar.
                                                                                                                              Zizi, 11/11/11

sábado, 29 de outubro de 2011

Primeira ida ao pediatra

 Só inquietações maternas
“Você é fumante?” 
Algumas vezes ouvi essa pergunta e não me incomodei tanto. Sei que as pessoas são curiosas mesmo e adoram estar “atualizadas” com os assuntos alheios. Elas nunca me viram fumar e jamais veriam, é lógico! Quem sabe, me perguntavam isso porque o dono da pensão parecia mais uma maria-fumaça em  constante atividade e eu, sempre circulando por perto, acabava fumando por tabela. Nunca fumei,  nem pretendo, isso faz parte da minha formação, meus pais nunca fumaram,  minhas irmãs muito menos.
Entretanto, essa pergunta me deixou realmente intrigada por duas vezes: quando tive meus dois filhos. Ao nascerem,  o peso deles era abaixo do que eu estava acostumada a ver na família. O Danilo pesou 2, 500 Kg; a Patrícia 2,300 Kg e ambos com 46 cm   (Os 22 quilos que eu engordara na gravidez  não migraram;  continuaram me fazendo companhia... Afff!)
Olhava para aquelas coisinhas miúdas e perdidas dentro da roupinha. Por que eles eram tão enrugadinhos, pelancudos, Chorões, embora lindinhos? Seriam frágeis demais, doentes, desnutridos? Será que eu saberia cuidar direito em casa? Sobreviveriam? Atordoada, saí do hospital com essas erupções mentais. Minha ida ao pediatra seria muito em breve, com certeza!
 E, realmente, não demorou nada. Com medo de ser tarde demais, fui à procura de um pediatra que me  orientasse melhor, pois parentes e amigos cheios de boas intenções,  não economizavam palpites e sugestões das mais diversas e absurdas possíveis como: substituir o leite do peito (que julgavam fraco) por mingau de maizena ou  comida, dar leite de saquinho, iogurtes, leite de cabra, leite condensado, etc.
Inexperiente sim, burra não!  Eu não obedecia  quase nada das “dicas milagrosas”. Continuei amamentando, e com o tempo ia acrescentando à alimentação deles leite em pó (para recém-nascido), chás, maçãs raspadas, bananas amassadas, suco de laranja, sopinha de legumes.
O pediatra ouviu as minhas inseguras inquietações a respeito do peso deles.  Pedi que receitasse uma vitamina, ele recusou completamente e ainda questionou-me:  “Para quê”?.  Disse que gordura não era sinônimo de saúde para ninguém e que eu deveria alimentá-los só com o meu leite natural; que não existia leite materno fraco. O fato de eles terem nascido com pouco peso e tamanho não era preocupante, uma vez que aumento de peso é mais significativo após o nascimento e não antes. Concluindo: não havia motivos para preocupações.  A  criança  era saudável, o que eu queria mais?  Fiquei mais aliviada depois  disso. Percebi que estava no caminho certo. Eu não era uma mãe relapsa. Apenas uma  aprendiz  com muita vontade de acertar logo de primeira. Os anos posteriores se encarregaram de me provar que eu me saí bem; hoje não me canso de apreciá-los, são lindos, saudáveis, inteligentes...
Meu desatento baú de guardados denominado memória possui algumas brechas: não me recordo dos rostos,  nem dos nomes dos médicos que passei meus filhos, mas suas palavras ficaram cristalizadas.  Elas estão aqui fresquinhas sendo recontadas hoje e, quem sabe, consigam tranquilizar algum coração aflito de mãe, perdido em algum lugar deste nosso imenso mundo pequenino...

                        Zizi, 29/10/2011

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Língua Portuguesa



                                        “Ensino de Português:
               origens das práticas e necessidades dos alunos hoje”

A Língua Portuguesa já foi, tantas vezes, tema inspirador em diversas produções de poetas e de escritores. Geralmente esses textos costumam ressaltar a sua importância e valorizar o seu uso através de metáforas e personificações variadas, traçando um perfil subjetivo que refletem nela um caráter humano. Uma provável tentativa de provocar, no leitor, sua sensibilidade e despertar um maior interesse pelo seu código de comunicação. Mas, e o aprender desse idioma?

O ensino da língua, nos dias atuais, é um dos maiores desafios que o professor enfrenta. Vários são os motivos que dificultam o trabalho em sala de aula, destacando-se: a inadequação de uma clientela do século XXI com a estrutura educacional alicerçada em modelos arcaicos.

Embora tenham ocorrido consideráveis mudanças na organização e na estrutura educacional, não foi possível desenvolver e implantar, ainda, uma política educacional de qualidade que contemplasse, plenamente, as necessidades e os objetivos, tanto do público alvo (alunos), quanto dos profissionais que atuam na área da educação. Todas as revoluções educacionais nasceram da insatisfação pelo sistema que predominava naquele momento.

Muitos professores terminaram o Ensino Médio nos anos oitenta. Tiveram, portanto, uma formação escolar baseada nos critérios educacionais daquela época, os quais o professor era a figura central e representante do saber, que deveria passar seus conhecimentos a um número limitado de alunos.  Em contrapartida, hoje, esses profissionais lidam com disparidades. A começar pela excessiva quantidade de estudantes em cada sala de aula; a “desarmonia”, entre os direitos e os deveres dos mesmos e a estrutura educacional em crise, resultantes de uma má administração. Entretanto, por trás disso tudo, há um histórico a ser considerado:

O ensino da Língua Portuguesa, no início do século XX,  era focado na gramática normativa e na ortografia, desconsiderando, assim, pontos relevantes como o contexto sócio-histórico e cultural do aluno.  Depois disso, houve algumas alterações referentes à escrita e a produção textual.

Nos anos cinquenta, ainda se baseavam em um modelo arcaico adotado pelo colégio D. Pedro II, cujo foco resumia-se em: rigor gramatical, leitura e “quase” reescritas de obras ou trechos clássicos, seguidos (nas séries posteriores) de criações de narrativas, cartas, descrições e dissertações. Exigia-se do aluno a criatividade, mas, priorizando sempre a norma culta.  Não havia uma preocupação com o objetivo do texto, seu interlocutor e nem o ambiente onde iria circular. Desconsideravam, pois o processo significativo que daria sentido àquela construção.

 As duas décadas seguintes (anos sessenta e setenta) foram marcadas, principalmente, pelo grande acesso de alunos oriundos de classes sociais menos favorecidas, causando assim, uma mudança no perfil do alunado. Esse detalhe contribuiu para uma alteração no que diz respeito à parte didática-pedagógica.  A Lei 5692 de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1971 estabeleceu para o ensino da língua materna, a disciplina “Comunicação e Expressão”. A ideia  foi absorvida também por editoras responsáveis pelo material didático, que enfatizaram o processo comunicativo nas atividades sugeridas. Mesmo assim, a denominação dos textos quanto ao gênero continuavam: narração, descrição e dissertação.

A partir dos anos oitenta, surgiram estudos mais aprofundados com relação aos gêneros textuais desenvolvidos nas escolas. Os autores destas obras os consideravam descontextualizados e por isso sugeriram que produzissem textos ao invés de escrever redações.  As  pesquisas linguísticas também enfatizaram a organização,  articulação  e o bom desenvolvimento do texto. Todavia, os aspectos formais estavam à frente de qualquer outra exigência.

Poucas, porém significativas, foram essas mudanças porque serviram como base e contribuíram, nos anos seguintes até os dias atuais, para um “amadurecimento” do ensino da língua. Da década de noventa em diante, autores como Bakhtin (1992), Schneuwly   &   Dolz   (2004),   Marcuschi   (2008), Miller (2009), Rojo (2008), Bazerman (2006), dentre outros, destacaram a importância  de se compreender os  gêneros textuais  e   sua pertinente utilização nas práticas sociais. 

Hoje, o papel da escola vai além de alfabetizar e ensinar a estrutura da língua materna; ela deve preparar melhor o aluno, apresentando, entre outros conteúdos necessários à aprendizagem escolar, a diversidade e a prática dos gêneros textuais que circulam dentro e fora do ambiente escolar e fazem parte da sua realidade. Não se trata de desvalorizar o estudo da língua em sua estrutura, leitura ou produção de textos, mas sim de torná-lo mais atraente, prático e significativo, independente da série ou idade.   

Zizi,  24/10/11